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Ainda existe Estado de Direito?

por Naçao Valente, em 28.02.15

Hoje, no Expresso, (reproduzido em Câmara Corporativa) Miguel Sousa Tavares, publica com a frontalidade que se lhe conhece, um texto intitulado "O estado do Estado de Direito". Tendo como paradigma a questão da prisão preventiva de Sócrates e de Carlos Santos Silva, sem qualquer enquadramento com os pressupostos legais de tal tipo de prisão, desmonta com rigor jurídico a sua legalidade. Conclui que estamos em plena negação de um verdadeiro Estado de Direito.

De facto, quando um juíz mantém presos cidadãos sem culpa formada, sendo um deles ex-primeiro ministro de Portugal, eleito democraticamente, alegando perigo de fuga, revela uma mentalidade tacanha, provinciana e paroquial. Pior, confunde o seu papel de Juíz, respeitador das regras processuais, com um justiceiro que se pauta por razões de cariz vingativo. Na provável impossibilidade de o vir a condenar, vai-o mantendo em prisão para expiar os males que na sua perspectiva lhe pode ter causado.

Falemos claro. Da mesma forma que os políticos nas suas funções devem ser exercer o poder dentro dos limites da constitucionalidade, também o poder judicial não pode ser descricionário, uma espécie de poder sem limites. Desta forma se desiquilibra o equilibrio de poderes atribuindo a um deles características de absolutismo. Deste modo se entrega a vida de cidadãos a sacanas sem lei.

MG

 

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As 50 sombras da nação

por Naçao Valente, em 20.02.15

Quando o dia se deita e a noite explode em escuridão, as sombras de Grey invadem os virtuosos lares de gente comum, e o sexo rola por detrás de janelas fechadas à curiosidade dos bigbrodistas. De norte a sul do país do sol, milhões de homens querem ser "greys", fazendo ranger as molas dos colchões, mais ou menos ortopédicos,numa sinfonia de gemidos. As mulheres querem aproveitar a vaga de fundo, a maré viva,  para viver acima das suas possibilidades, de país pobre. E sonham com  essa vertigem antes que a troika dos costumes, nos ponha o freio nos dentes, e o cinto de castidade em vez de fio dental. O que faltava era que depois da austeridade viesse a assunção da castidade. E aí tínhamos o sexo restrito a 50 sessões mensais, sorteadas na tv, entre os parceiros, com voto autenticado pela maioria. E ainda se criava um novo espectáculo para ver os vencedores receberem a chave do cinto qa ser aliviado uns furos.

Mas sexo à parte, divagações absurdas em pano de fundo, o país do sal e das conservas está assombrado por nuvens cinzentas, que o cobrem de sombras escuras,  o nosso quotidiano. Cobrem porque nem sempre cobriram. Podia referir o erotismo do passado, com os reis a fazer filharada nas suas deslocações por toda a nação. Duvido até que exista portuga que não tenha sangue real. Nem que seja em valores diminutos. Mas a população não lhe ficou atrás,. indo por esse mundo fora na ânsia de descobrir mulheres de cores variadas. E nunca negou fogo, nem recusou a nobre função, de em corpo e espírito, cumprir a missão de esbatimento de fronteiras sexuais. E não me custa admitir que os genes tugas, vivam muito para além da lingua portuguesa, em todos os quadrantes planetários. Comparado com esta orgia de sexo, as Sombras de Grey são uma história para crianças.

Passaram os tempos gloriosos do Império. A decadência moral invadiu o povo lusitano. Vivemos tempos de grande retrocesso. Na mais alta magistratura temos o homem que, contrariamente aos seus egrégios avós, nunca fez chichi fora do penico. E ainda bem, que estirpe da sua qualidade dispensamos. Já a gente da governação castrou-se para servir a Merkel. São um grupo de eunucos que assistem ao harém da abundância alemã, submissos, indiferentes, sem se lhe levantar um pelo púbico. Amarram-se e chicoteiam-se para agradar ao senhor Schaulbe A vida e o que tem de bom passa-lhes ao lado. A grande riqueza da nação, o capital humano, o poder fálico, murchou no Outono do empobrecimento.

As sombras da nação não são cinquenta. São imensuráveis. É uma única sombra que cobre todo o território. Assim o país do Sol, do Sal e do Sul está cativo de cinzentismo. O sexo envergonhado é procriação na nação do prazer insonso, deslocado para outros azimutes. Para ser mais claro e libertar a palavra do dia sem luz, a nação do sexo viril, vive num limbo onde pode usar com propriedade o título do país fodido. Bem e depressa.

 

MG  

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Liga Europa: David e Golias

por Naçao Valente, em 19.02.15

O Sporting não teve sorte no sorteio para esta fase da Liga Europa. Saiu-lhe a fava, o segundo classificado da Liga Alemã. Em termos de orçamento as diferenças são enormes. Estamos perante uma luta entre David e Golias. A título de exemplo o preço de um único jogador comprado recentemente, corresponde ao orçamento anual do Sporting. Grosso modo o vencimento desse jogador pagaria todos os ordenados do plantel leonino. Mas estabelecidas as diferenças, o Sporting bateu-se, olhos nos olhos, com a equipa alemã. Na primeira parte teve a melhor oportunidade de golo e foi-lhe escamoteado um penalti. Jogou com nove portugueses, alguns jovens, contra uma sociedade das nações de craques. Na segunda parte cometeu erros por inexperiência e acabou a perder por dois a zero. Contudo mostrou raça e personalidade. Falta a segunda parte da eliminatória. Se o pequeno David derrotou Golias, porque não poderá o Sporting vencer o poderoso Wolfsburgo? 

MG

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8-A minha vida não dava um romance

por Naçao Valente, em 16.02.15

Acasos, traições e encantamentos

 

Não acredito em casamentos perfeitos, nem mesmo se feitos no céu. A minha relação com a Maria Alice não fugiu a esse desiderato. À parte negócios de gabardine, teve altos e baixos, como em todas as relações conjugais. A convivência diária no mesmo espaço, passou por uma aprendizagem de partilha e de cedências que não evitaram conflitos ocasionais. E aprendi que, durante uma relação estável, por mais longa que seja, há em cada um de nós facetas que continuam desconhecidas. Como acontece nas relações mais prolongadas, esta foi-se cimentando em confiança mútua. Nesses primeiros tempos de estado de graça, vivíamos cada dia intensamente. Não havia tempo para aborrecimentos. Havia um filme para ver (os cinemas ainda não tinham virado igrejas) um bar para curtir umas musiquinhas e bater um papo com amigos. Depois, as rotinas foram-se instalando, o modo de vida alterou-se.

Passaram cerca de dez anos que vivo com o Zé e mau grado pequenos desentendimentos não estou arrependida. Aliás nem podia ser de maneira. Foi uma decisão que tomei desde que o conheci e cuja chama mantive acesa até chegar o dia em que se concretizou. Mantive uma paciência de santa, que nunca fui. Durante esse período tive outros pretendentes, mas mantive-me fiel a essa vontade. Sempre imaginei o Zé como o pai dos meus filhos. Parece estranho que tendo sido a questão de ter meninos o clique que desbloqueou a nossa relação, ainda não tenha nascido nenhum. Nem sequer é culpa da gabardine. Esta bem se tem esforçado. Acontece que o Zé vai arranjando argumentos para adiar o evento. Expressões como “aproveitar a vida,” “dar oportunidade à carreira profissional” são frases gastas de tanto serem usadas. E têm sido motivo de alguma tensão.

A velha questão de quando é que “temos meninos” arrasta-se desde aquele dia, em que caí, quase de paraquedas, no apartamento da Alice e por lá me fui deixando ficar. Com desculpas mais ou menos esfarrapadas fui transferindo o assunto para as calendas. Inconscientemente não me sentia preparado para essa responsabilidade. Talvez tivesse a secreta esperança que a gabardine fosse desbotando, mas parece é que ganhava mais cor. Eu penso que este comportamento tem raízes num trauma de juventude com repercussões no presente. O episódio abortado em que pretendi ser pai aos seis anos nunca deixou de me perseguir. E tornava-se mais vivo quando regressava de férias ao local de infância. Lá estavam os pais reformados de toda a actividade graças aos benefícios sociais trazidos pelo democracia. E lá estava aquela Maria, que comigo cometeu pecado lidibinoso, em pensamento, na linguagem do senhor padre, aquando da confissão que precedeu a primeira comunhão. E agora olho para essa Maria e vejo-a carregada de filhos até às orelhas. Agarrados à bainha da saia, pendurados na cintura, dentro dela, ou a sugar-lhe a vida pelos peitos. Vejo-a precocemente envelhecida, o rosto marcado por indícios de rugas, os olhos baços e tristes. Na última vez que lá estive ouvi, a propósito, alguém comentar “ raios parta o Chico pedreiro, já tem outra vez a mulher prenha”.

O Zé passa cada vez menos tempo em casa. Começou a dar aulas no ensino nocturno. Dizia que era para aumentar os rendimentos tendo em vista os projectos futuros. Para mim a razão era outra. O casamento passava por um certo cansaço. Comecei até a desconfiar que podia andar moura na costa.

 

 

Na escola onde leccionava, como em todas as outras, o feminino predominava entre o corpo docente. E digo sem complexos que aquilo era uma festa para a vista. Tinha a noção que era comprometido mas felizmente não era cego. E havia mulheres de todos os estados e para todos os gostos. Havia solteirinhas, solteironas, casadas, mal casadas, descasadas. E houve quem passasse por todas as situações.Uma das colegas que dava nas vistas chamava-se Maria Remédios. Esbelta, bem modelada fisicamente, prendada, com um a cara digna de Afrodite, trazia embeiçados alguns machos .

Todos os dias o namorado que constava ser muito ciumento a esperava depois de cumprir o seu horário. Isso mantinha os seus admiradores à distância. Para mais, o indivíduo tinha ar de poucos amigos. Desde sempre intuí que aquela relação tinha o seu quê de estranho. E estava certo. Certo dia o rosto da Maria entrou na sala de professores cheio de hematomas. A preocupação ou curiosidade dos professores presentes interrogou-a:

-Maria que te aconteceu? Foi a pergunta comum

Ela não fugiu à questão e respondeu sem evasivas: “Eu e o meu namorado chegámos a vias de facto e ele bateu-me. O que em si não é original. Desde que começámos a namorar que me dá porrada. Ingenuamente aceitei que era a sua forma de mostrar o seu amor. Aliás poucos dias depois de nos conhecermos, porque recusei acompanhá-los a uma festa deu-me uma chapada que me atirou ao chão e me deixou KO. Às vezes também lhe respondo mas perco sempre aos pontos. Foi o que aconteceu desta vez. Quando me deu um empurrão perdi as estribeiras e dei-lhe um pontapé entre as pernas que o deixou sem fôlego. Assim que recuperou deu-me tantas que me deixaram neste estado”

-Mas Maria porque não o pões com dono, disse uma colega mais ousada.

-Que hei-de fazer? Gosto dele assim. E temos casamento marcado.

Estranha forma de amar, foi o pensamento que me ocupou a mente. Percebi que não adiantava fazer qualquer comentário. A quem apanha por gosto não adianta contraditar. Notava-se a sua determinação em conservar a relação. Acabaram mesmo por dar o nó. E que lua de mel que eles tiveram, apimentada com pancada de criar bicho. A Maria mudou de estado em tempo recorde: saiu solteira, esteve casada e voltou em processo de divórcio. Ao menos parece que conseguiu resgatar os neurónios perdidos.

Os admiradores da Maria ficaram com o campo livre e andavam com ela nas palminhas. Mas isso era assunto fora da minha agenda. Apesar do rame rame da minha vida, mantinha-me fiel ao meu compromisso conjugal. Contudo os acasos são uma constante no nosso quotidiano. E um imprevisto aconteceu quando chegou a professora substituta de uma colega em adiantado estado de gravidez. A mocinha entrou algo tímida mas depressa mostrou um à vontade que se tornou contagiante. Não pude deixar de reparar naquele porte juvenil de onde sobressaia uma saia tímida que saindo da cintura de modelo não ousava ir muito além do início das coxas bem modeladas. O seu olhar penetrante baralhava os sentidos . Quando aqueles olhos se cruzavam com os meus parecia que me iam devorar. Aquela nova Maria fez-me recordar a juventude que começava a esmorecer. Começámos a interagir mais uma vez por obra do acaso. No último tempo da noite as aulas eram muito diminutas e ficávamos só nós dois. À saída comecei a acompanhá-la até à casa onde se encontrava hospedada. Àquela hora tardia a moça da mini saia tinha algum receio de fazer aquele percurso curto, mas isolado. E acompanhava-a com muito gosto. Além da agradável companhia, sempre ia ganhando uns créditos, para apresentar aquando do julgamento final. Passo a passo fomos ganhando alguma intimidade. E fui chegando cada vez mais tarde a casa. Uma noite, tivemos a companhia de uma lua cheia, desencandadora de romantismos, alongámo-nos no bate-papo e esquecemo-nos das horas. A dada altura convidou-me a subir a fim de ficarmos mais confortáveis. Vontade não me faltava mas tenho o mau hábito de racionalizar exageradamente as situações. Para ganhar tempo perguntei:

-E a tua hospedeira não ficará incomodada?

-Incomodada? De certeza que não. A esta hora já mergulhou num sono profundo. Para mais é muito surda. Ouve com ajuda de aparelho auditivo que tira quando vai dormir. Podemos deitar o prédio abaixo que não acordará.

Olhei para a saia ou melhor para o que dela restava e comecei a imaginar o espaço do seu corpo que ainda estava tapado. A ideia de deitar o edifício ao chão era desafiante. E decerto deveria ser agradável. No entanto, apresentava riscos que não está na minha natureza correr. Via a Maria Alice acorrer ao estrondo e a ajudar os escombros a soterrar-me sentimentalmente. Entre a tentação da mini saia, e a estabilidade da gabardine, hesitava. Se como hoje, houvesse redes sociais, teria colocado o caso em discussão pública. Ainda estávamos longe dessa ferramenta e fiquei entregue aos ditames da minha consciência.

-Vamos? insistiu a voz que morava na mini saia

Cruzámos o olhar e sentiu-me como pássaro hipnotizado por cobra enleante. Preparava-me para a seguir quando o encantamento foi quebrado pelos faróis de um carro ao fundo da rua. Ao aproximar-se pareceu-me ser o inconfundível mini da Alice.

-Hoje estou cansado, disse, fica para outro dia. Fica bem.

Comecei de imediato a descer o passeio ao encontro luz que se aproximava. Ainda pensei que prescindia de uma oportunidade, que me transportaria para patamares, mais consentâneos, com uma história de vida, merecedora de ser ser contada nas páginas de uma ficção rica de acontecimentos. Não seria esse o meu destino como o da maioria de viventes.O carro parou.

-Entra. A voz na obscuridade não deixava dúvidas. Era a da Maria Alice.

Entrei e joguei ao ataque. “Alice, por aqui! Há algum problema?”. Trazia vestida uma gabardine beje e denotava a serenidade que, às vezes prenuncia borrasca”. “Então pá, perdeste o rumo?” ironizou, já vistes as horas? Estava a ficar preocupada”. Comovi-me. Ter alguém que se preocupa connosco e que abandona o recato do lar, para se aventurar na noite escura é digno de agradecer aos céus? “Obrigado Alice, mas não havia necessidade, sei cuidar-me. Trabalhámos até mais tarde e depois acompanhei uma colega que está aqui hospedada”. Não reagiu à minha explicação. Limitou-se a perguntar: “ondes tens o carro?.” “Está no parque da escola, deixa-me lá”. Antes de a deixar e para desanuviar o ambiente ironizei: “porque vens de gabardine? Estás à espera de temporal?” Respondeu à letra: “Sou prevenida, acontece que algumas vezes, da bonança nasce a tempestade”.

Ao subir para o apartamento senti-me nervoso como da primeira vez que a visitei. Tinha passado incólume no primeiro round, mas nunca se sabe como reage mulher desconfiada de eventual traição. Entrei, silenciosamente, procurando passar desapercebido. Em vão. A Alice esperava-me em frente à porta, com o mesmo vestuário. No mesmo registo, disse:

-Receias que a borrasca entre em casa?

-Faz sentido. A borrasca hoje és tu.

Vem chumbo grosso, foi o que me ocorreu, mas para minha surpresa foi desapertando a gabardine tal como da primeira vez, e acolheu-me como um temporal desejado. O apartamento não caiu, apenas tremeu qb. Quando devolveu a gabardine ao seu cabide perguntei:

Tens tomado a pílula?

-Ó pá, deixei-me disso. Há tanto tempo que não me procuras que deixou de se justificar.

Naquele momento reforcei a ideia que a vida é feita de acasos e que a Alice me tinha tirado de um possível sarilho, mas que me tinha metido noutro. O tempo o iria comprovar.

 

continua

 

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Caim e Sócrates

por Naçao Valente, em 15.02.15

Uma senhora de Trás-os-Montes tem milhões numa conta na Suíça. A senhora afirma que desconhece a existência dessa conta. Um caso digno de estudo? Nem por isso. O omnisciente Correio da Manhã já resolveu a charada. Descobriu que a dita cidadã tem parentesco com José Sócrates para aí há três gerações. E apesar de nem se conhecerem está na cara que tal dinheiro é do Sócrates. Clarinho como a água. Por esta ordem de ideias não me admiraria que a linha genealógica de Sócrates entroncasse directamente em Caim, filho de Adão e Eva, que matou o irmão Abel para lhe ficar com os bens. Bate certo. Ninguém foge às suas origens. Será que chegou a justiça divina? Será que sequela bíblica chegou a Trás-os- Montes? Dan Brown já está atento.

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Namorar não tem idade, nem dia

por Naçao Valente, em 15.02.15

Rita (nome fictício) entrou numa sala de professores com um ar estranhamente afogueado. A professora na casa dos cinquenta dirigiu-se a uma colega com quem partilhava cumplicidades e entregou-lhe um pequeno e amarrotado pedaço de papel. Encontrei-o no para brisas do carro, no estacionamento do pingo doce. (passe a publicidade que o unhas de fome do Jerónimo Martins não me paga nem um cêntimo furado) A colega solicitada leu um pequeno texto em letra de forma:

 

 

 A MULHER É COMO O VINHO

 QUANDO TEM QUALIDADE

 SE TRATADA COM CARINHO

 MEHORA COM A IDADe

 

 OS MEUS OLHOS GANHAM BRILHO

 O MEU CORAÇÃO ACELERA

 MESMO QUE ARRANJE SARILHO

 ESTOU FIEL À SUA ESPERA

 

ADMIRADOR CONFESSO

DA SUA CALMA BELEZA

DE CORPO E ALMA ME OFEREÇO

 

E COM TODA A GENTILEZA

ESTOU CONVICTO QUE MEREÇO

SER SÚBDITO DE VOSSA ALTEZA

 

CONTACTE-ME: 9xxxxxxx

 

  

Fiquei muito perturbada disse a  descasada Rita, procurando controlar a emoção na voz. Vou-te fazer uma confidência de mulher para mulher: tenho as hormonas aos saltos de tal maneira, que até me cresceram as mamas. Depois de desabafar Rita foi ganhando serenidade e procurou esquecer o incidente. Entretanto o acontecimento foi passando de boca em boca até ser conhecido por toda a comunidade docente. E de tal modo pegou nas mentes femininas, que os habituais cumprimentos foram substituídos entre o mulherio pela frase, "hoje já foste ao pingo doce?". E porque a língua portuguesa é muito traiçoeira as respostas variam de acordo com a protagonista. Assim uma trintona à toa na vida respondeu: já fui ao pingo doce mas continuo na amargura. Uma quarentona mal casada garantiu: já fui ao pingo doce toda empinocada mas ninguém me viu. Uma recentemente descasada que arranjou passarinho novo confessou: já lá fui (sem ter ido) e dei-me muito bem.Repito: a língua portuguesa é mesmo muito traiçoeira.

 

Tenho estado a matutar no desvario que vai na cabeça de tanta dama e começo a concluir que naquele parque de estacionamento deve haver um  constante corropio. Até começo a ter pena do poeta sedutor. Com tanta oferta não vai ter mãos a medir, nem vai dar conta do recado. Em verdade garanto que estava a pensar reformar-me nessa área. Contudo, a minha costela solidária está-me a empurrar para o terreno a fim de ajudar o assorbebado sedutor. Não sei se sou poeta e sedutor, admito que seja mas pouco. Mesmo assim vou montar banca num pingo doce perto de si para procurar dar resposta a tão prementes necessidades. De tal modo que já comecei a alinhavar uns versos adequados a diversas situações. Se aparecer uma com as medidas bem certinhas escreverei:

 

Nem a Vénus de Milo

em todo o seu esplendor

 exalava tanto estilo

e emanava tanto amor

 

Se a candidata for mais para as formas arredondadas arrisco:

 

 No dia mais luminoso

 ou na noite mais escura

 essas formas sinuosas

 são poemas de ternura

 levam um santo à loucura

 

Se tiver olhos azuis:

 

Olhos de grande beleza

que fazem lembrar o mar

e eu tenho uma certeza

neles me quero afogar

 

Se tiver um jeito inseguro:

 

 Essa postura insegura

segura de formosura

esconde uma alma pura

Que precisa de ternura

  

Se tiver um aspecto algo deslavado:

 

Nem tudo o que brilha é ouro

em nada existe certeza

o mais famoso tesouro

pode não estar na beleza

 

Se for pouco avantajada:

 

A mulher e a petinga

tem o charme das rosas

podem ser bem pequeninas

que até são mais saborosas

 

E por aí fora. Terminarei sempre com esta quadra:

 

Eu não sou um pinga amor

sou um homem de respeito

e estou aqui com fervor

prá receber no meu peito

 

 

E pronto. Agora é só lançar o anzol e esperar que o peixe pique na minhoca, especialmente o esfomeado. Agora é só lançar a escada para socorrer as aflitas. Agora é semear e esperar que a fruta amadureça e me caia no regaço. Espero no entanto que a colheita não seja em excesso se não o feitiço  pode virar-se contra o feitiçeiro. E aí  vou-me arrepender por me meter onde não sou chamado, só por causa da minha costela solidária. No princípio foi de uma costela solidária que nasceu a mulher, agora e neste caso pode lixar o homem Contudo arrisco por um bom namoro, seja ou não dia de S. Valentim.

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Há dias assim

por Naçao Valente, em 12.02.15

Há dias mais tristes que a noite. Isto partindo do princípio que a noite é triste. Relacionar a noite com a tristeza será apenas uma força de expressão. Percebo. Por antinomia o dia é luminoso e a noite é escura. Mas atribuir ao dia ou à noite sentimentos da natureza humana, não passa de uma figura de estilo. Em boa (ou má) verdade, afirmar "que dia tão triste" não tem a ver com a situação do dia, mas com o estado de espírito de quem faz a afirmação. Verdade de La Palisse.

De um certo ponto de vista, todos somos um pouco bipolares. Balançamos entre alegria e tristeza pelas mais variadas razões. Dizemos: "o dia y foi o mais triste da minha vida ou guardamos no lado positivo da memória o dia z". E como todas as tristezas são passageiras, todas as alegrias são breves. Tal e qual como os dias. Daí que que associemos os nossos humores a esta ou aquela data.

Uma equipa de futebol perdeu com a Alemanha? Foi um mau dia para Portugal. Corremos com os castelhanos em 1 de Dezembro de 1640? Foi um dia feliz para a nação. Tão feliz, que ganhou direito a entrar na galeria, de estar presente, no dia a dia de gerações passadas e vindouras. Ao invés, terá sido um mau dia para os castelhanos e por isso, propositadamente, esquecido. Ora aí está. Bom ou mau, triste ou alegre? Eis a questão.

Voltando ao ponto de partida: um dia o Criador achou por bem criar o mundo. Como avaliará esse dia? Com tantas coisas interessantes para fazer, porque raio criou o mundo? Com tantos assuntos interessantes para escrever porque raio, o cronista  gasta o seu latim com especulações metafísicas? Ou dito de outra forma, com reflexões idiotas? Ou será sinal de insanidade mental?

Não sei! Mas há dias assim!

 

MG

 

 

 

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Portugal não tem Presidente

por Naçao Valente, em 11.02.15

Hoje ouvi o senhor Presidente da República, mas pouco, pronunciar-se sobre a situação da Grécia. As suas palavras traduzem, ipsis verbis, a posição do Governo Português. Preconceito ideológico e total alinhamento com a posição da Alemanha, ou talvez pior. Isto é, se esta diz mata, o governo diz esfola.

O escritor Eça de Queiroz escreveu a propósito de um governo do seu tempo: "não cairá porque não é um edifício, sairá com benzina porque é uma nódoa". Este dito presidente é bem pior que nódoa. É um catálogo de mesquinhez misturada com provincianismo pacóvio ao serviço da sua tribo.

O eleitorado escolheu uma personagem patusca e manhosa para a mas alta magistratura. Enganou-se redondamente. A nação não merecia. Um país com tantos séculos devia ter a representá-lo na Presidência um cidadão que aliasse independência com nobreza. Que fosse presidente de todos os portugueses e não apenas de alguns.

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Estofo de campeão, uma ova

por Naçao Valente, em 10.02.15

O derby entre Sporting e Benfica terminou com um empate. Tendo em conta as diferenças de orçamento e de craques o Sporting devia estar rejubilante. Mas pasme-se. Quem rejubilou, com grande festa, foi a equipa do Benfica. Os leões saíram tristes, mesmo muito tristes, porque tiveram o jogo ganho, porque o mereciam ganhar e porque o perderam no último segundo, numa jogada de muita infelicidade.

O clube da águia, sendo grande, jogou como equipa pequena. Metida no seu campo, medrosa, cautelosa, apostou todas as fichas no empate. Estranho comportamento de uma equipa de estrelas que estava a defrontar um colectivo de jovens da formação leonina. Diz-se que foi uma vitória do tacticismo assumido. Podem dizer o que quiserem. Para mim foi o jogo de um grupo sem estofo de campeão.

O facto de liderar o campeonato não significa que o mereça. Essa posição foi conseguida graças a acasos, ajudas e muita sorte. Ao contrário do ditado, neste caso, a sorte tem protegido o timorato. Este campeonato, se o ganhar, ficará registado nas estatísticas, mas a função mais nobre do futebol que é proporcionar espectáculo e gerar emoções foi desvalorizada.

MG 

 

 

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No dentista a aventura não pára

por Naçao Valente, em 05.02.15

Já não me espantam as contradições da natureza humana. Do mesmo modo aceito, naturalmente, as minhas. Antes angustiava-me com a ida ao dentista. Agora espero, ansiosamente, que chegue o dia. Chego até, como imitação daqueles relógios que contam os dias ao contrário, a riscar os dias no calendário. E isto desde que a doutora Isabel, a minha dentista, ficou viúva. Ao contrário do que mentes invejosas possam pensar, o meu interesse, garanto, que se limita a prestar solidariedade, a uma alma  destroçado pela perda do marido, apesar da sua reputada infidelidade. É certo que a doutora é também licenciada em partir corações, e muitos devem andar alvoroçados, mas isso não pode ser a motivação de um bom samaritano.

Quando entrei na sala de espera o meu coração, de bom samaritano, batia aceleradamente.Tive de respirar profundamente para diminuir a ansiedade. A recepcionista do sorriso brilhante informou-me:

-A doutora ainda não chegou. Depois baixando o tom, como quem revela uma inconfidência sussurrou "continua a ter problemas relacionados com o ex-marido. Partiu mas deixou os sarilhos". A conversa foi interrompida pela chegada da dentista. Reparei no mesmo porte de fazer parar o trânsito, mas a expressão denotava alguma tristeza inesperada. Enquanto me dirigia para o consultório a frase "partiu mas deixou sarilhos" perseguia-me como um fantasma.

-Boa tarde doutora.

Manteve o rosto fechado e um olhar que parecia ausente daquele local. Em fracções de segundos passaram-me pela imaginação os mais desvairados absurdos.

-Boa tarde, disse secamente. Sente-se. Vamos então fazer os moldes?

-Foi para isso que cá vim.  De certo não se esqueceu?

-De maneira nenhuma. Desculpe-me mas hoje não estou nos melhores dias...

Notei que procurava ultrapassar a frieza inicial

...recebi uma notícia...que me dilacerou e ...

Senti que estava com dificuldade em articular as palavras, que lhe saiam tão pesadas como chumbo. Recorri à lugares comuns de psicologia de café:

-Mas doutora sou seu paciente à muito tempo, comungamos algumas coisas, como a paixão clubista, e isto na vida acontece o mesmo que no desporto, um dia perde-se, noutro ganha-se. Se tem a ver com o assassínio do seu marido, a vida continua...

- São assuntos pessoais. Vamos ao que interessa.

Acomodei-me na posição que me determinou, e num último olhar, não pude deixar de apreciar a beleza de um rosto  prisioneiro da melancolia. As suas mãos enluvadas davam a sensação que recusavam executar a tarefa. Um tremor contínuo atrapalhava a feitura dos moldes.Parecia que uma raiva contida se descarregava de forma involuntária. Respirou profundamente.

-Vamos parar, disse, mostrando alguma serenidade. Fiquei aliviado. Com tanto instrumento de tortura à mão estava a sentir-me em maus lençóis. Nunca se sabe quando alguém, mesmo com cara angelical. perde o controle.

-Hoje, continuou, não consigo concentrar-me. Nem que fosse de ferro conseguiria aguentar. Quem conseguiria depois de saber que uma amante do Ernesto declarou que tem um filho dele e que o vai propor como herdeiro. E ainda acrescentou que tem estudo confirmado de ADN. O meu marido partiu mas esqueceu-se de levar os sarilhos.

Despejou este discurso num jacto, como se aliviasse o estômago de incómodo repentino. Talvez não pretendesse fazê-lo perante um paciente, embora velho conhecido. Contudo, há momentos em que os filtros pessoais, sofrem tão grande impacto, que se rompem inesperadamente.

-Tudo bem doutora. O meu dente pode esperar. O que é preciso é que tudo se resolva da melhor maneira. Foi o que consegui dizer, com a certeza que era uma banalidade sem sentido. Mas que poderia dizer? No fundo, de uma ou de outra forma, resolver-se-à. E então voltarei ao consultório onde espero encontrar a bela dentista a fazer jus à sua beleza e à sua competência.

-   

 

 

 

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