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Ali Babá

por Naçao Valente, em 30.11.12

 

Pedro passos Coelhos tem uma atracção pelo show business. Tudo leva a crer que gostaria de ter sido um artista da rádio da televisão e da cassete pirata, mas o melhor que conseguiu, na fase de homem da "night", foi casar com uma cantora de um grupo dos anos oitenta chamado Doce. Foi talvez inspirado na sua pessoa, que esse grupo fez a canção Ali Babá. Se assim foi fica-lhe a matar e é o prenúncio do que seria a sua incursão no mundo da política, anos mais tarde. Não conseguiu ser um cataclismo na música, mas conseguiu provocar um cataclismo no país. Aqui publico uma versão actualizada de Ali Babá. 

 

Ali Babaca

Mil e um golpe que traçamos juntos

Mil e uma petas que pregamos a muitos

Mil e uma fantasias

Tu sempre foste de aldrabices

Como estava o país tu já sabias

E foste um homem de vigarices

 

Com vocalizações bem estudadas

Foste impondo o teu catecismo

Da religião do despesismo

Mil e uma coisa bem pensadas

Tu foste o homem das golpadas

 

Alibabaca

Babaca doce

Ali babaca

Babaca trouxe

Ali babaca

Babaca come

Ali Babaca  

Babaca fome

 

Ali Babaca

Há mais de um ano que nos estrafegas

Sempre a exigir mais mil entregas

Sem regras

Ultrapassates todas as loucuras

Hipotecastes verbas futuras

Tu és o homem das velhas trevas

 

Falhaste na área das cantorias

Mas na politica sempre subias

Com muita manha

Com cara de pau e muito cinismo

Levas o país para o abismo

Tu és o homem  da Alemanha

 

Abre-te sésamo

Derrama tino

Abre-te sésamo

Fecha o cretino

Abre-te sésamo

Muda o destino

 

E se alguém quiser rever a versão original aqui fica o link:

 

http://letras.mus.br/doce/947524/#selecoes/947523/

 

 

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Carta a Pedro

por Naçao Valente, em 29.11.12
 Reposição da carta, sem resposta, a Pedro, publicada em Outubro. 
 

Pedro,

 

Eu não faço parte da tua lista de amigos no Facebook. E tu não fazes parte da minha. Nem quero. Cada macaco no seu galho. Por isso não sei se quando escreveste aquele texto piegas (bem prega frei Tomás) eu também estava incluído. Mas mesmo não estando na tua lista de amigos sinto que devo responder-te. A razão é simples: custe o que custar queres fazer-me crer que a medida da TSU (que já sepultaste em vida) era para o meu único e exclusivo bem. Significava mais exportação, mais riqueza, mais emprego. Sabes o que me preocupa? É que começo a acreditar que tu acreditas mesmo nisso. Nisso e em todas as patranhas que o Borges, o Moedas, O Gaspar e o Macedo te metem nessa cabecinha. Sim digo bem, cabecinha, porque racionalidade é coisa que não abunda por aí.

 

Deixa-me dizer-te uma coisa Pedro: tenho mais de oitocentos anos e já conheci muito artola. Mas tu consegues superá-los em todas as vertentes, com excepção do jeito para cantorias. Era por aí que devias ter ido. Tinha sido melhor para ti e para mim. Nestes longos anos de vida poucas vezes fui tão enxovalhado. Nem quando o Fernando I, me ia entregar de mão beijada a Castela. Nem quando Sebastião I, num ataque de loucura, me deixou exangue em Alcácer-Quibir. Nem quando Filipe I me anexou. Nem quando Napoleão me vandalizou. Nem quando D. Carlos vacilou perante sua majestade britânica. Foram actos infelizes mas desculpáveis perante determinadas circunstâncias. Resisti, lutei e ergui-me.

 

Dissestes que fizeste um dos discursos mais ingratos aos portugueses. Parafraseando Johann Goethe "ingratidão é uma forma de fraqueza. Jamais conheci homem de de valor que fosse ingrato". Ingrato, sonso, sem vergonha. Ainda o cadáver TSU estava quente já nos brindavas com mais uma dose cavalar do teu veneno. Sempre com o estafado discurso de que não há alternativa. Há, como houve em 1383, como houve em Aljubarrota, como houve em 1640, como houve em 1920. Para além de fraco com os fortes, não te reconheço um pingo de valor. Humilhas-me perante a arrogância alemã. desconsideras-me nos foros internacionais. Empobreces-me deliberadamente. Erras e persiste no erro.

 

Sou um ancião. Merecia mais respeito. Merecia mais competência. Merecia mais inteligência. Merecia mais carinho. Sou um ancião, mas com capacidade de se rejuvenescer. Parti em frágeis barcos pelo oceano desconhecido e sobrevivi. Defrontei terríveis adamastores e venci. Não serás tu, Pedro que me conseguirás destruir. Quem adormeceu com o teu canto de sereia já começa a acordar. Tu e todos os Vasconcelos que te rodeiam podem começar a contar os dias.

 

Zé Portugal  

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Carta aberta a Passos Coelho

por Naçao Valente, em 29.11.12

 

Para divulgação, aqui reproduzo a carta aberta subscrita por importantes personalidades da  sociedade portuguesa.

 

Carta aberta a Passos Coelho (na íntegra)

Exmo. Senhor Primeiro-Ministro,

Os signatários estão muito preocupados com as consequências da política seguida pelo Governo.

À data das últimas eleições legislativas já estava em vigor o Memorando de Entendimento com a Troika, de que foram também outorgantes os líderes dos dois Partidos que hoje fazem parte da Coligação governamental.

O País foi então inventariado à exaustão. Nenhum candidato à liderança do Governo podia invocar desconhecimento sobre a situação existente. O Programa eleitoral sufragado pelos Portugueses e o Programa de Governo aprovado na Assembleia da República, foram em muito excedidos com a política que se passou a aplicar. As consequências das medidas não anunciadas têm um impacto gravíssimo sobre os Portugueses e há uma contradição, nunca antes vista, entre o que foi prometido e o que está a ser levado à prática.

Os eleitores foram intencionalmente defraudados. Nenhuma circunstância conjuntural pode justificar o embuste.

Daí também a rejeição que de norte a sul do País existe contra o Governo. O caso não é para menos. Este clamor é fundamentado no interesse nacional e na necessidade imperiosa de se recriar a esperança no futuro. O Governo não hesita porém em afirmar, contra ventos e marés, que prosseguirá esta política - custe o que custar - e até recusa qualquer ideia da renegociação do Memorando.

Ao embuste, sustentado no cumprimento cego da austeridade que empobrece o País e é levado a efeito a qualquer preço, soma-se o desmantelamento de funções essenciais do Estado e a alienação imponderada de empresas estratégicas, os cortes impiedosos nas pensões e nas reformas dos que descontaram para a Segurança Social uma vida inteira, confiando no Estado, as reduções dos salários que não poupam sequer os mais baixos, o incentivo à emigração, o crescimento do desemprego com níveis incomportáveis e a postura de seguidismo e capitulação à lógica neoliberal dos mercados.

Perdeu-se toda e qualquer esperança.

No meio deste vendaval, as previsões que o Governo tem apresentado quanto ao PIB, ao emprego, ao consumo, ao investimento, ao défice, à dívida pública e ao mais que se sabe, têm sido, porque erróneas, reiteradamente revistas em baixa.

O Governo, num fanatismo cego que recusa a evidência, está a fazer caminhar o País para o abismo.

A recente aprovação de um Orçamento de Estado iníquo, injusto, socialmente condenável, que não será cumprido e que aprofundará em 2013 a recessão, é de uma enorme gravidade, para além de conter disposições de duvidosa constitucionalidade. O agravamento incomportável da situação social, económica, financeira e política, será uma realidade se não se puser termo à política seguida.

Perante estes factos, os signatários interpretam – e justamente – o crescente clamor que contra o Governo se ergue, como uma exigência, para que o Senhor Primeiro-Ministro altere, urgentemente, as opções políticas que vem seguindo, sob pena de, pelo interesse nacional, ser seu dever retirar as consequências políticas que se impõem, apresentando a demissão ao Senhor Presidente da República, poupando assim o País e os Portugueses ainda a mais graves e imprevisíveis consequências.

É indispensável mudar de política para que os Portugueses retomem confiança e esperança no futuro.

PS: da presente os signatários darão conhecimento ao Senhor Presidente da República.

Lisboa, 29 de Novembro de 2012

MÁRIO SOARES

ADELINO MALTEZ (Professor Universitário-Lisboa)

ALFREDO BRUTO DA COSTA (Sociólogo)

ALICE VIEIRA (Escritora)

ÁLVARO SIZA VIEIRA (Arquiteto)

AMÉRICO FIGUEIREDO (Médico)

ANA PAULA ARNAUT (Professora Universitária-Coimbra)

ANA SOUSA DIAS (Jornalista)

ANDRÉ LETRIA(Ilustrador)

ANTERO RIBEIRO DA SILVA (Militar Reformado)

ANTÓNIO ARNAUT (Advogado)

ANTÓNIO BAPTISTA BASTOS (Jornalista e Escritor)

ANTÓNIO DIAS DA CUNHA (Empresário)

ANTÓNIO PIRES VELOSO (Militar Reformado)

ANTÓNIO REIS (Professor Universitário-Lisboa)

ARTUR PITA ALVES (Militar reformado)

BOAVENTURA SOUSA SANTOS (Professor Universitário-Coimbra)

CARLOS ANDRÉ (Professor Universitário-Coimbra)

CARLOS SÁ FURTADO (Professor Universitário-Coimbra)

CARLOS TRINDADE (Sindicalista)

CESÁRIO BORGA (Jornalista)

CIPRIANO JUSTO (Médico)

CLARA FERREIRA ALVES (Jornalista e Escritora)

CONSTANTINO ALVES (Sacerdote)

CORÁLIA VICENTE (Professora Universitária-Porto)

DANIEL OLIVEIRA (Jornalista)

DUARTE CORDEIRO (Deputado)

EDUARDO FERRO RODRIGUES (Deputado)

EDUARDO LOURENÇO (Professor Universitário)

EUGÉNIO FERREIRA ALVES (Jornalista)

FERNANDO GOMES (Sindicalista)

FERNANDO ROSAS (Professor Universitário-Lisboa)

FERNANDO TORDO (Músico)

FRANCISCO SIMÕES (Escultor)

FREI BENTO DOMINGUES (Teólogo)

HELENA PINTO (Deputada)

HENRIQUE BOTELHO (Médico)

INES DE MEDEIROS (Deputada)

INÊS PEDROSA (Escritora)

JAIME RAMOS (Médico)

JOANA AMARAL DIAS (Professora Universitária-Lisboa)

JOÃO CUTILEIRO (Escultor)

JOÃO FERREIRA DO AMARAL (Professor Universitário-Lisboa)

JOÃO GALAMBA (Deputado)

JOÃO TORRES (Secretário-Geral da Juventude Socialista)

JOSÉ BARATA-MOURA (Professor Universitário-Lisboa)

JOSÉ DE FARIA COSTA (Professor Universitário-Coimbra)

JOSÉ JORGE LETRIA (Escritor)

JOSÉ LEMOS FERREIRA (Militar Reformado)

JOSÉ MEDEIROS FERREIRA (Professor Universitário-Lisboa)

JÚLIO POMAR (Pintor)

LÍDIA JORGE (Escritora)

LUÍS REIS TORGAL (Professor Universitário-Coimbra)

MANUEL CARVALHO DA SILVA (Professor Universitário-Lisboa)

MANUEL DA SILVA (Sindicalista)

MANUEL MARIA CARRILHO (Professor Universitário)

MANUEL MONGE (Militar Reformado)

MANUELA MORGADO (Economista)

MARGARIDA LAGARTO (Pintora)

MARIA BELO (Psicanalista)

MARIA DE MEDEIROS (Realizadora de Cinema e Atriz)

MARIA TERESA HORTA (Escritora)

MÁRIO JORGE NEVES (Médico)

MIGUEL OLIVEIRA DA SILVA (Professor Universitário-Lisboa)

NUNO ARTUR SILVA (Autor e Produtor)

ÓSCAR ANTUNES (Sindicalista)

PAULO MORAIS (Professor Universitário-Porto)

PEDRO ABRUNHOSA (Músico)

PEDRO BACELAR VASCONCELOS (Professor Universitário-Braga)

PEDRO DELGADO ALVES (Deputado)

PEDRO NUNO SANTOS (Deputado)

PILAR DEL RIO SARAMAGO(Jornalista)

SÉRGIO MONTE (Sindicalista)

TERESA PIZARRO BELEZA (Professora Universitária-Lisboa)

TERESA VILLAVERDE (Realizadora de Cinema)

VALTER HUGO MÃE (Escritor)

VITOR HUGO SEQUEIRA (Sindicalista)

VITOR RAMALHO (Jurista)

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Cavaco versus Silva

por Naçao Valente, em 28.11.12

    o mesmo sorriso, a mesma pessoa?

 

A memória é curta, mas ainda me lembro que houve um primeiro-ministro chamado Cavaco. E se a fraca memória não me atraiçoa, governou Portugal durante doze anos. Governou ou desgovernou? A história o dirá. Entrou no comboio do poder quando este deslizava nos carris dourados da adesão à CEE. Foi a época das fundos que engordaram as vacas, especialmente as do cavaquismo. Mas foi também a época em que emagreceram as pescas, definhou a agricultura, paralisou a indústria. É certo que se construíram infra-estruturas fundamentais, como vias de comunicação, mas também é certo que se começou a endividar o país e a criar um estado despesista.

 

Temos agora um presidente que se chama Silva. Se juntarmos as duas designações fica Cavaco Silva. Contudo, desiludam-se aqueles que acham que é a mesma pessoa. Não é, e por uma razão comprovado pelos factos. Vi, claramente visto, o senhor Silva Presidente criticar de forma dura o senhor Cavaco Primeiro-Ministro. Disse o primeiro que se o sector primário e secundário e que agora precisamos de o reconstruir. Ora, pondo o nome aos bois(salvo seja) quem o fez mais do que ninguém foi o segundo, que na época era primeiro com maioria absoluta.

 

Se Silva Presidente e Cavaco Primeiro-Ministro não são a mesma pessoa tudo bem. A crítica é certeira. Mas se por um qualquer acaso o são, estamos perante um caso de dupla personalidade provocada, quem sabe, por amnésia recorrente. E o que é, talvez mais estranho é o facto do eleitorado (isto é parte dele) ter eleito presidente o homem que destruiu o sector produtivo a troco de patacos transitórios e mal aproveitados. Pior do que amnésia, é incapacidade de aprender alguma coisa com os erros do passado. E quando o eleitorado, essa massa anónima volúvel, coloca no poder durante vinte e dois anos (metade do tempo do salazarismo) a personagem que destruiu estruturas básicas e que agora é co-responsável pela situação em que vivemos, é caso para perguntar se há racionalidade na democracia. Prefiro acreditar que sim e que Cavaco e Silva não são a mesma pessoa.

 

MG

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Ética na austeridade

por Naçao Valente, em 26.11.12

"É uma austeridade com ética"

 

Marco António, membro do governo de Portugal

 

A ética pode ser austera? A austeridade pode ser ética? Ética e austeridade sendo significantes têm um ou mais significados. Há ética na austeridade? Eis a uma boa questão!

Que me perdoem Sócrates, Platão, Spinoza, Descartes, Voltaire, Kant e muitos outros do métier, por meter foice em seara alheia. Ao buscar significados li que "a  ética busca fundamentar as acções morais apenas pela razão" e  em síntese  "pode ser definida como a ciência que estuda a conduta humana e a moral é a qualidade desta conduta, quando se julga do ponto de vista do Bem e do Mal". A austeridade, sendo um termo mais abrangente e que quando aplicada à economia, significa rigor no controle de gastos, o que no plano prático e no panorama actual, seja na Grécia ou mesmo nos Estados Unidos, quer dizer sacrifica-se o bem estar (geral) social para salvar o bolso dos investidores.

Ora quando se sacrifica o bem estar, em detrimento de interesses particulares, estamos perante uma conduta inserida no campo do Bem ou do Mal? Depende da perspectiva. Para os beneficiários directos desse sacrifício, é um acto justo, mas para os prejudicados um roubo. Significa que para os primeiros e seus testas de ferro, aumentar  rendimentos à custa de baixa de salários e de outros direitos adquiridos pela populações é moralmente aceitável. Mas sendo aceitável na sua perspectiva, não o é na dos que ficam ainda mais espoliados. Acresce que estes não deram o seu aval ao que foram obrigados a aceitar pela força dos jogos de poder .

A exploração dos mais fracos pelos mais fortes, pela austeridade ou por outro qualquer processo, sendo essencialmente uma acção da alçada da moral, mesmo mascarada como medida económica inevitável é um acto moralmente condenável. É um acto que põe em causa a dignidade do ser humano.

Quando um governante se serve da ética, como forma de justificar a austeridade/exploração, está a enxovalhar um conceito, atribuindo-lhe um novo significado, traduzido na amenização da austeridade pela ética. Mas casar a ética com a austeridade não deixa de ser um esbulho, para passar a ser um esbulho Bom. O que não é eticamente aceitável é que se distorça de forma grosseira o significado das palavras. O que é eticamente intolerável, é que se considere que, casando o bandido com o benfeitor o livramos da condenação. Uma coisa são logros  e outra são realidades e por mais que os testas de ferro dos "investidores" procurem justificações para as malfeitorias estas não deixam de o ser. O saque despudorado, a falta de respeito pela dignidade humana, não é desculpável. É um crime sem castigo. Não metam a ética nisso.

 

MG

 

     

 

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Bendita insónia (o regresso do não assunto)

por Naçao Valente, em 25.11.12

Tenho andado a dormir mal. De uma forma mais sofisticada, é aquilo a que os pedantes da língua chamam insónias. Faz-me até lembrar a vergonha que passei quando na inocência da infância, fui visitar um senhor da burguesia citadina, solteiro e com criada de dentro. A moça, uma jovenzinha aparentada da minha família, que ali fazia todo o serviço, presenteou-nos com uma apetitosa refeição. E estando eu já mais que abastecido, insistia com o apoio do dito cavalheiro, para que comesse mais. Respondi, no meu linguajar serrenho "eu não tenho mais fome". Foi aí que a minha mãe tão serrenha, com muita honra, quanto eu, me admoestou severamente dizendo: -deves dizer "não tenho mais apetite". Senti-me tão humilhado que ainda hoje coro só de pensar na cena. Mas que raio, as palavras  leva-as o vento e são como as cerejas. Veja-se que  comecei por falar nas noites mal dormidas e acabei nas cenas mal resolvidas. Não há dúvida, há dias em que o escriba se enreda nos "entretantos" e nunca mais chega aos "finalmente". É um pouco como o sexo tântrico, perde tanto tempo nos preliminares, que depois não tem energia para a acção reprodutiva, função suprema do acto.

Adiante e mudando de parágrafo, senão nunca mais me livro deste novelo. Assumindo um pouco de pedantismo linguístico, o que me traz até este arrazoado, é a razão das malfadadas insónias. Não, não se ponham a adivinhar que não chegam lá, nem com a ajuda da Maya. Será por causa da mediocridade dos políticos que nos governam? Ah, ah, ah. Ou por causa das medidas estúpidas que estão a destruir a Europa? Ha,ha, ha! Ou por causa da insanidade do senhor Presidente? Ha, ha,ha! Não me preocupa? Preocupa-me,  mas não me tira o sono. Mais, preocupa-me e dá-me logo vontade de usar linguagem reles, dar vida aquelas palavras em que todos pensam , mas com as quais sofisticamente se sentem incomodados. Como quando um comentador profissional diz que o Orçamento de Estado não "é exequível" e devia dizer que "este orçamento(com letra minúscula) é uma merda". Ou então, quando um deputado da oposição diz que esta gente nos está a empobrecer e devia gritar alto e bom som "estamos a ser fodidos e mal pagos". Ou ainda, quando um dirigente sindical formado nas docas se violenta a dizer que este governo tem de cair, quando na mente reprime a frase certa do "vão mas é pró caralho". E agora que me libertei um pouco do espartilho do "bem dizer" ,penso que ganhei asas para contar a fabulosa história do revolucionário Otelo Sarilho do Caralho e das suas duas mulheres. Não, não é esse. Este nasceu em Florianópolis e viveu uma história de fazer chorar as pedras da calçada. Está prometido. Palavra de escuteiro. 

 

Vamos ver se é desta. Nova mudança de parágrafo para ver se me livro de estar a meter assuntos a martelo e entro no que aqui me traz. Se bem me lembro, toda esta arengada começou com a dificuldade em atingir o estado rem. Mas esta fuga inconsciente (só pode)  deve ter uma explicação psicanalítica. Possivelmente, deve-se a uma deficiência no cortex frontal que me inibe de abordar assuntos de sexualidade recalcada ou mal resolvida. Porque no fundo, se trata de uma coisa simples e básica: ir ao cabeleireiro unissexo cortar o cabelo sobrevivente das agruras da vida. -Normal claro. Mas o problema de tanta ansiedade é o meu reencontro com a menina corpinho danone, que me apara a melena e me faz aumentar a temperatura corporal com o máximo profissionalismo. E o que me atira ainda mais para o arquipélago da insónia é a possibilidade de estar só com ela "tête à tête", sem a presença daquelas dondocas  que com conversas de vão de escada, a distraiem da nobre acção que está a executar. 

 

Conversa acabada. Está dito, está dito. Está feito está feito. Demorou mas fiz a catarse. Agora é só esperar, ansiosamente, com fraco sono. Bendita insónia. Depois talvez conte o resto. Veremos, porque há não assuntos que são mesmo não assuntos.

 

MG

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Neo-golpada

por Naçao Valente, em 24.11.12

O último golpe de estado, em Portugal, à maneira antiga, foi no dia 25 de Abril de 1974. É certo que depois, fruto das circunstâncias, evoluiu para um período revolucionário, mas nesse dia foi um golpe militar típico. Esta forma de derrubar governos ou regimes apresenta, grosso modo, as mesmas características: forças militares assumem uma revolta contra o poder instituído, umas vezes com êxito outras não.

 

A adesão de Portugal à Comunidade Europeia, reduziu, praticamente a zero essas acções. Os sistemas democráticos, inseridos na UE, estão protegidos por espécie de soberania popular partilhada. Os militares diluem-se num papel meramente corporativo. Mas a imaginação humana não tem limites e consegue encontrar forma de ultrapassar barreiras que parecem intransponíveis. É assim, que sob a capa diáfana da democracia conseguem chegar ao poder através de um golpe de estado. É assim que conseguem fazer de uma forma sofisticada e subtil o assalto ao poder.

 

Chamo-lhe à falta de outra designação neo-golpada. Foi assim que os golpistas da S. Caetano à Lapa tomaram conta disto. Começaram por descredibilizar o governo anterior, desgastado com a crise das dívidas soberanas,  numa campanha sem escrúpulos na comunicação social. A pouco e pouco foram-no encurralando num labirinto sem saída. Por fim e sabendo que podiam contar com a estupidez sem limites da extrema esquerda, deram-lhe a estocada final. Sócrates caiu nesta armadilha que nem um patinho. E mesmo demitido se deixou arrastar, penosamente, para a negociação de uma solução que abominava, acabando por ficar com o ónus da culpa. O que vem a seguir é a consumação do golpe.

 

Dir-se-á: ganharam as eleições. Pois ganharam! Ganharam montados na mentira,cavalgando aldrabices, condicionando, desonestamente, o eleitorado. E esta não é uma forma democrática de chegar ao poder. Isto é fraude. Isto é uma nova forma de golpe de estado. Tem nomes e tem rostos. Os nomes e os rostos que com a mesma falta de escrúpulos estão a oprimir o povo que os apoiou. Haverá pior ditadura?

 

MG

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Agente infiltrado?

por Naçao Valente, em 21.11.12

O ministro Vítor Gaspar faz-me lembrar o aluno marrão, graxa e auto-convencido. Faz tudo para agradar ao seu mestre. Para além disso, denota uma personalidade digna de psicanálise. Erra e não reconhece o erro. E mesmo quando uma maioria esmagadora o diz e o informa que é preciso mudar de caminho persiste no seu rumo. É como um maquinista que passa um sinal vermelho e que depois de alertado continua a sua marcha. Sabemos que o rumo que segue é traçado à priori e que o segue cegamente. Só que a mão que o guia está também  contaminada de cegueira. E quando um cego conduz outro cego, é certo e sabido, que acabarão ambos no abismo.

 

Já se percebeu que Gaspar é um seguidor obediente do governo alemão. Mais que um ministro do governo português demonstra ser uma espécie de dignitário da Chanceler e do seu Ministro das Finanças. Foi apanhado há uns tempos, por uma câmara indiscreta, numa conversa de pé de orelha com o ministro alemão, a quem prestava vassalagem, alegando o seu bom comportamento. Hoje, reuniu com o mesmo ministro, como quem vai a despacho. Esta colagem pública levanta novas dúvidas: Gaspar, afinal, é ministro do Estado português ou do Estado alemão? Afinal, a quem presta contas? É um ministro de Portugal ou um agente infiltrado?  

 

MG

 

 

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O melhor amigo

por Naçao Valente, em 19.11.12

variedades1.com

 

O Barrim era apenas um cão. Um cão, mesmo cão, na sua qualidade de cão. O avô Zé era um avô. Apenas um avô que gostava de o ser. Até parecia que tinha nascido avô. A avó sendo avó era de tudo um pouco, como qualquer avó. O neto era simplesmente: alegria, chatices, preocupações. Todos personagens de uma mesma  história sem história.

O avô tinha o vício (ou seria uma virtude) de beber sem grande parcimónia, bebidas viciadas essas sim em teor alcoólico. Saía de casa de manhã trombudo e taciturno para ganhar para as sopas. Antes de chegar ao trabalho, entrava na taberna aconchegava a goela com um mata-bicho. A meio do dia, entrava em cena o "tintol". Quando chegava a noite e regressava a casa, o seu semblante era um sol de Agosto. respirava alegria e boa disposição por todos os poros.

O Barrim era cão sem raça, mas não se queixava. Não tinha o porte de um serra da estrela, nem a elegância de um perdigueiro. Nasceu rafeiro, mas sentia-se bem na sua pele. Sendo pequeno, gostava de exibir os seus dentes "pepsodent" a qualquer canídeo que o incomodasse, sem olhar ao seu tamanho. Guardava a casa, com brio, de dia e de noite, com frio, sol ou chuva. Assume o papel de herói.

A avó tratava da casa, cozinhava com poucos ingredientes e bem, lavava, passava e remendava com esmero (ah pois) a minguada roupa. A sua extravagância era ir ao correio ver se chegavam notícias de filhos ausentes.

O neto ia à escola, jogava à bola nos descampados e chegava a casa esfomeado e muitas vezes arranhado. No fundo a sua maior utilidade era fazer asneiras, dar trabalho e canseira.

Às vezes o avô exagerava na dose do tinto. Era fácil perceber quando. O avô nunca estagiava na taberna até horas tardias. Assim que se aproximava o lusco-fusco regressava a casa para o jantar com a família e com o seu amigo etílico. E quando isto não acontecia, era certo e sabido, que o seu amigo o atirara, com violência, para alguma valeta de onde não se conseguia levantar. Chegara a hora de entrar em acção a preocupada avó, o inconsciente neto e claro, o abnegado Barrim. Com o seu pelo malhado a brilhar ao luar, quando o havia e com as suas pernas curtas, atalhava caminho e era o primeiro a chegar junto da vítima.

E graças à eficácia do Barrim depressa se encontrava o avô na sua cama de terra batida. E enquanto nos aproximava-mos já o avô Zé entabulara conversa com o cão batedor: - olha o Barrim,o meu melhor amigo!  

 

estórias do menino Ozé

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Quando se festejava o dia dos meus anos

por Naçao Valente, em 17.11.12

A noite era escura e tinha estrelas abraçadas pela lua,

Os pássaros voavam em bandos por cima dos trigais,

Espantando os insectos parasitas.

Os galos cantavam sempre de madrugada anunciando o sol

Que amadurecia as searas,

No Tempo em que se festejava o dia dos meus anos.

 

Corria pelos campos enlameados pela brisa matinal,

Mergulhava livre nos pegos  enxameados de cardumes ,

Corria atrás da bola de farrapos em relvados de terra escura

E pontapeava a vida com candura.

Eu era feliz e ninguém estava morto

 

Aprendia nos longos serões

A vida vivida e a esperança do devir de ser alguém,

Aprendia na cartilha maternal o passado reflectido no presente

Para ser homem português e cidadão,

Porque

Na casa rústica fazer anos era apenas um passo para o futuro

 

Nas feiras de tendinhas animadas por alegres carrosséis,

Nos bailes de concertinas afinadas em concertos de desafinação,

Arrastavam-se pesados pés em ladrilhos poeirentos de ilusões,

Sapatos de homem beijando os de mulher.

Crescia mais um palmo em cada ano,

A alegria era breve e o sonho era livre na liberdade condicionada

E festejava-se o dia dos meus anos, apenas o dia dos meus anos

Porque a infância é a ilusão da vida sem fim

Como em qualquer religião. 

 

MG

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