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Ciganos e gajos

por Naçao Valente, em 31.05.12

Não tenho vontade de escrever porque digo o mesmo que todos os outros e a falta de originalidade é patética. Patética e vazia.

                                                                                             do blogue Defender o Quadrado

 

Faço minhas, com a devida vénia, estas palavras sobre palavras, palavras, palavras que poderia aqui escrever(ou que tenho escrito) e que outros já escreveram até com mais arte e propriedade. Por isso recupero um texto que escrevi há tempos sobre ciganos, uma minoria em vias de extinção, ou talvez não. Também não sei se terá originalidade. Quem ler que decida.

 

Hoje vou escrever sobre ciganos. Sobre os que vivem do rendimento mínimo e sobre os que vivem do rendimento máximo. Espero não ser questionado pelos primeiros porque não sabem ler, por falta de escola, nem pelos segundos porque só lêem números.

 

Os ciganos autênticos (ou da bayer se fossem aspirinas), os rom cuja origem se perde no fundo dos tempos, sempre tiveram utilidade nas comunidades onde se instalaram, ou assustando criancinhas para comer a sopa ou criando outelets em movimento, onde podemos adquirir camisolas do crocodilo ou cassetes de música variada a preços de contrafacção. Ao fim e ao cabo nem são muito exigentes. O máximo que pedem é uma casinha com rendimento mínimo dentro.

 

Os gadjos, ciganos comportamentais, são mil vezes mais preocupantes. Vendem a sua e a nossa alma ao diabo, chupam-nos o sangue com mais regularidade e descaramento que os vampiros do cinema, comem-nos a carne  e até os ossos nos roem como cães esfaimados. Alguns ciganos de rendimento máximo perpetuam-se há gerações e atravessam regimes, ideologias e têm alguma nobreza. São os Melo, os Espirito Santo, os Burnay,os  Roquete.... Outros têm ascendência humilde, são émulos do lado negro do 25 de Abril, filhos putativos de uma democracia mal parida. Usam nomes sem pergaminhos como , Vara, Loureiro, Gomes, Coelho, mercados....

 

E nós? Como diz o ditado, de cigano e de louco todos temos um pouco? Ostracizamos o rendimento mínimo,  mas pagamos. Odiamos a corrupção, mas pagamos. E alguém pode dizer desta água não beberei? Fazer o quê? Mudar a natureza humana?

 

MG

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Mundos paralelos (Imaginarius)

por Naçao Valente, em 28.05.12

Maurangas  Argentina

 

Imagine que está sentado na relva de um jardim a assistir ao espectáculo de tipo sul-americano com muita piada. Imagine que o indivíduo lhe enfia um capacete militar e o arregimenta para com outros ex-assistentes formar um pelotão. Imagine que lhe coloca uma campainha na mão e que o faz agitá-la em sincronia com outras campainhas fazendo-o protagonista de um concerto.

 

Grotest Maru Alemanha

 

Imagine que está no meio de uma pequena multidão numa praça pública e vindos do nada entram pela praça cinco estranhas figuras, caras inexpressivas, qual esculturas de tosca madeira, vestidos de fatos cinzentos com malas de executivos bancários. Imagine que que se deslocam em estranhos movimentos, hirtos e silenciosos por entre a multidão. Imagine que olhos nos olhos nos interrogam sem dizer uma palavra sobre  o nosso tempo de vida e como o passamos. Imagine que entram no edifício da Câmara Municipal, surgem nas varandas e nas janelas em inesperadas coreografias e de onde por fim descem pendurados em cordas e estranhos bailados e acrobacias, sempre munidos das suas pastas de executivos. E veja-os  "Ansiosos, assustadores e, porém,  patéticos (...) figuras tragicómicas, palhaços do nosso tempo.  Irá o sistema colapsar? Estaremos nós no seio de um desastre ou será este já o  dia após a catástrofe? Se somos “recursos humanos”, para quê sermos a  matéria-prima? Como gastamos o nosso tempo de vida? " Eia as interrogações que permanecem.

Pan.optikum  Alemanha

Imagine-se numa noite escura envolvido numa dramatização sobre a existência e o seu sentido. Imagine-se protagonista de uma história do mundo pautada por guerras de interesses e de invenção de todos os muros. E veja-se confrontado com a dúvida: estamos sós ou será que alguém nos observa? E veja a acção desenrolar-se em palcos móveis por entre o grande palco ocupado por uma multidão. E espante-se perante os efeitos visuais finais, multimédia, de artes circenses e pirotecnia que deixarão em aberto esta questão: "poderá ser que façamos parte do todo da  existência e, consequentemente estejamos ligados a todos os humanos e aos  outros seres do universo? "

 

Imagine-se em mundos paralelos por onde se circula livremente  sem pagar qualquer imposto. Imagine-se em mundos sem austeridades e  sem a desbunda do capitalismo selvagem sem alternativa e onde há vida para além da troika e onde se comprova que nem só de pão vive o homem e onde a vida não se resume num cifrão. 

 

Isto e muito mais não foi apenas imaginação. Isto e muito mais(cirque hisurt, frança, teatro a quatro, teatro bandido, Portugal, prodicciones aledañas, Espanha etc, etc ) viu-se  no Imaginarius, Festival do Teatro de Rua em Santa Maria da Feira. Sonho, alegria, reflexão, esperança, espectáculo!

 

MG

 

PS Os meus agradecimentos ao município de terras de Santa Maria, por oferecerem, gratuitamente, há doze anos, a milhares de visitantes, este festival de cultura, único no país.

 

 

 

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Crónica dos bons velhacos

por Naçao Valente, em 27.05.12

 

 

Em memória dos velhos contrabandistas da raia(o meu pai incluído) que nas décadas de quarenta e cinquenta do séculoXX tinham a noite como cúmplice para com, sangue, suor e lágrimas ganhar uns trocados. Em memória dos regionalismos do falar algarvio e/ou da linguagem oral. (quase em desuso)

 

Truz, truz,truz…

Três pancadas secas ecoaram na madrugada, sobressaltando o sono dos pássaros que esvoaçaram  sem sentido.

Truz, truz, truz…

Três pancadas promissoras entraram suavemente no sonho de Elvira. Não havia dúvida, o seu homem tinha chegado.

Truz, truz, truz…

Três pancadas estremeceram a velha porta de madeira da casa de Felisberto, escurecida pelo tempo.

Elvira riscou a pederneira e acendeu o candeeiro a petróleo.
Levantou-se cambaleando de sono mal desperto e movimentou o seu pequeno corpo até à porta de entrada.

Truz, truz, truz…

Três pancadas desesperadas sobressaltaram -na. O seu homem parecia desesperado. Assomou-se ao postigo para confirmar. O home tá cheio de âiças(1). Puxou a taramela e abriu a porta. Felisberto entrou de supetão.

Brrrrrrr

Elvira recuou cheia de cagufo(2). Mas home disse, tu tás em pelão?!(3) Só tens o chapé(4), o que te aconteceu? Foste róbado?

Brrrrrrrrr

Fui róbado por um guarda da nação e estou …meio almariado(5)... Faz-me um café quente… vou-me meter nos lençós(6).

Homessa, panhado (7) por um guarda. O mundo anda às avessas!

-Pois anda e panhei um cagaço que só eu sei, mas já cá tou.

Elvira acendeu o fogão a petróleo , pôs a esculateira a aquecer água e  misturou-lhe duas colheres de café de cevada.

Felisberto partira com o seu sócio Venício para Espanha havia duas semanas. Faziam-no várias vezes por ano nos tempos mortos da lavoura, para juntar alguns tostões ao débil rendimento da sua actividade. Quando acabavam as sementeiras, quando terminavam as ceifas e as debulhas, no fim das mondas. Transportavam uma pequena carga de café em grão, cedida por Sebastião um comerciante de contrabando e passavam a fronteira para a entregaram a outro comerciante de contrabando. Durante uma semana dormiam de dia e viajavam escondidos na noite. Depois de entregar a mercadoria recebiam o pagamento. Arriscavam então entrar nas cidades densamente iluminadas. Disfarçados de cidadãos comuns e arremedando um castelhano arrastado entravam nas lojas para aplicar os seus lucros. Compravam umas bugigangas  para rentabilizar o ganho e regressavam, fazendo o mesmo trajecto em sentido inverso.

-Aqui tens home o café, para te tirar o entenguido(8), disse Elvira.

Uiiiiii

-Raça melher, o  puc´ro (9) tá mesmo quente…até escalda.

-Mas então como é que foste panhado?

Nós chegamos ao rio, respondeu Felisberto entre goladas de café, já  a noite ia dentro e bem negra.Como sempre tiramos a roupa para o atravessarmos. Pusemo-la dentro do saco oleado, assim como uns veludos e uns perfumes que trazíamos para mercar. Entramos na água sem ver vivalma. Apenas se ouvia uma ou outra arrã (10)e o barulho das nossas braçadas….

Chlap, chlap, chlap-

-Ó Felisberto nã ouves um barulho estranho?

Chlap, chlap, chlap

-Tu tázé maluco… Venício? É barulho dos remos duma lancha.

- Tá escuro como breu. Serão carabineiros?

-Qual carabineiros qual carapuça. Esses têm todos as mãos untadas. São tão contrabandistas quanto a gente.

-Parem em nome da lei.

-Venício,conheço esta voz é… do cabo Palma da Guarda fiscal.

-Mas qu´é canda o gajo a fazer em águas espanholas a esta hora?

-Nã sei, mas tá clandestino como a gente.

-Pode estar Felisberto,mas tá armado, conho .

- Temos a burra nas couves. (11)O que fazemos?

- Vamos largar a porra do oleado, que é o que magano (12) quer, e vamos salvar a pele.

…E foi assim que saímos do rio e fizemos o caminho até casa, finalizou Felisberto. E agora não me besoires mais…(13)

Elvira mais triste que a noite já não conseguiu dormir. Sentou-se junto à Singer onde costurava para fora. Quando o dia amanheceu, Felisberto saiu do quarto e Elvira sem levantar a cabeça do remendo (já ensanguentado de tanto se picar na gulha) que estava a pregar numas calças puídas disse marafada(14):

- Ó home isto é que foi um negoiço,(15) nem a roupa do corpo salvaste?

- Deixa lá melher, já estou vestido outra vez e agora vou entregar ao Sebastião o dinheiro da viajem, que trazia bem seguro na copa do chapé.

Elvira levantou a cabeça e ficou estarrecida

- Mas tu tás vestido com a roupa de soldado reservista? Hoje por acaso há inspecção?

- Não. Pior, hoje há guerra e onde há guerra há sangue,respondeu Felisberto, enquanto saía porta fora, sem ouvir a mulher comentar, “ai mé Deus ainda arranja mais desgraça com um filho pra comer coida(16)".

Na venda de Sebastião os copos de mata-bicho iam deslizando pelas goelas sequiosas dos agricultores/contrabandistas. Felisberto entregou ao comerciante um pequeno frasco ;”tá aqui o material.” Sebastião agarrou-o e leu o rótulo escrito em letra de caneta de tinta permanente vermelha: óleo de rícino.

Pouco depois entrou o cabo Palma, como acontecia todas as manhãs, garboso na sua farda cinzenta.”Deita-me aí um o conhac do melhor que
ontem fiz bom negocio”.O comerciante pegou um copo já preparado e encheu-o “aqui tem, cabo Palma”.

O Palma bebeu de um trago como sempre fazia estalando a língua, perante olhares meio submersos na penumbra matinal.

- Este escorregou mesmo bem, disse o Palma …mas que esquisito …parece que me está a dar a volta às tripas, disse, enquanto segurava com as
mãos o abdómen.…

Aiaiai…

E soltava esgares de dor :“que zurrapa me deste sacana, vais pagar-mas”

Levantou-se então um pelotão de soldados reservistas formando-se  em duas filas. Enquanto faziam continência ao cabo Palma, diziam em coro “às suas ordens nosso cabo”.

O Palma arrastou os pés trôpegos e saiu da venda por entre as alas militares, deixando atrás de si um cheiro nauseabundo a enxofre.

-Vocês são mesmo uns bons velhacos- disse Sebastião. Exageraram na dose, o homem está todo borrado!

Tictactictactictac

Quando Felisberto empurrou a porta de madeira negra da sua casa, Elvira continuava a pedalar na sua máquina de costura.

- Então home em que sarilho te foste meter?

- Fui participar numa boa acção; demos uns dias de folga ao Palma. O garganeiro(17) mereceu-os depois do serviço que prestou ao Estado Novo...

 

Adaptado para Fábrica de histórias

 

1-ânsias

2-medo

3-nu

4-chapéu

5-tonto

6-lençóis

7-apanhado

8-com frio

9-púcaro

10-rã

11-não estou a gostar

12-velhaco

13-não me incomodes

14-zangada

15-negócio

16-côdea

17-quer sempre mais

 

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Escrever no vento

por Naçao Valente, em 23.05.12

Palavras, palavras, palavras. De muitas palavras se faz a blogosfera. Palavras de elites da escrita. Palavras  de milhares de cidadãos anónimos. O ciberespaço liberalizou a palavra, "igualitarizou" as ideias. Aqui todos podem exprimir-se, todos podem colocar opiniões, todos podem publicar textos literários. É o comunismo da escrita. O acesso da plebe à expressão do pensamento em letra de forma.

A escrita dos blogues e nos sites não passa porem de uma imitação de democracia literária. A literatura que permite retorno e que ficará para memória futura continua a residir na velha galáxia de Gutemberg. E esta continua a funcionar no ciclo fechado de uma elite de nobreza literária. Escrever no ciberespaço é como escrever no vento. É uma escrita breve que uma brisa contínua vai arrastando do horizonte visível. É uma espécie de estrela cadente que pode brilhar intensamente por uns instantes mas depressa se transforma num obscuro buraco negro.

O que move então o escritor da blogosfera(a maioria) que rouba horas ao seu tempo, que pretere outras actividades para uma tarefa comparável a um trabalho de Sísifo (1) assumido voluntariamente ? Haverá variadas razões: combate político, partilha, divulgação de ideias,de textos ficcionados, de temas culturais, de tradições, de intimidades, de cumplicidades etc. Mas há uma explicação que me parece comum, especialmente entre os bloguistas individuais que é o prazer de escrever e de ser lido, muitas vezes em pequenas redes de partilha e de afectos.

Ser um ciberescritor até pode ser algo gratificante, mas é bastante cansativo. Daí que ao navegar ao acaso na blogosfera se encontrem amiúde  blogues abandonados ou simplesmente desaparecidos. Ou porque cumpriram a sua função ou porque faltou disponibilidade ou porque foram vencidos pelo desânimo. À vezes o bloguer resiste porque apesar de escrever no vento, ainda actredita que nem tudo o vento levou.

 

1)Segundo Higino, ele odiava seu irmão Salmoneu; perguntando a Apolo como ele poderia matar seu inimigo, o deus respondeu que ele deveria ter filhos com Tiro, filha de Salmoneu, que o vingariam. Dois filhos nasceram, mas Tiro, descobrindo a profecia, os matou. Sísifo se vingou ... [Nota 1] e, por causa disso, ele recebeu como castigo na terra dos mortos empurrar uma pedra até o lugar mais alto da montanha, de onde ela rola de volta[3][4].

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Crítica à insensatez

por Naçao Valente, em 21.05.12

Se estou triste? Não, eu quero é festejar...

 

Adrien Silva Jogador do Sporting, emprestado à Académica

 

Adrien Silva é um profissional de futebol. Joga na Académica por empréstimo do Sporting, clube onde foi formado e a quem deve a sua profissionalização. E é, também, este clube que lhe paga o vencimento. Significa isto que não deve dar o seu melhor pelo clube que representa? De maneira nenhuma. Aliás foi colocado na Académica para evoluir como profissional.Mas esconder-se atrás do profissionalismo para justificar a afirmação acima citada, revela falta de bom senso e insensatez. Mais, revela falta de respeito pelo clube que o emprega e o catapultou para a profissão que desempenha. E  demonstra, ainda, insensibilidade perante os milhões de adeptos, certamente tristes com a perda da taça de Portugal. Contrariamente a uma grande estrela, Cristiano Ronaldo, que já nem faz parte dos quadros do Sporting, mas que sempre teve contenção verbal e gestual, nos jogos com o seu antigo clube, não mostrou grandeza.

Adrien poderá ser no futuro mais uma estrela de futebol. Mas esta declaração não devia passar incólume. É que para além da sua valia técnica existem valores humanos que devem ser preservados. E o Sporting se quer continuar a ser diferente, tem de colocar os valores acima das contingências transitórias ou de eventuais ganhos imediatos.

MG

 

 

 

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O coiso

por Naçao Valente, em 19.05.12

O desemprego tem que ser uma preocupação de todos nós...e todos temos que  trabalhar em conjunto para ultrapassar este
coiso...

Ministro da economia de um país inexistente

 

Era o coiso, meu bem, era o coiso

Era a coisa que mais detestava

E o coiso, ai meu bem, e o coiso

Ai, meu bem, com a coisa, coisava.

 

Era o Álvaro, meu povo, era o Álvaro

Era o coiso que mais asneirava

E o Álvaro, meu povo, e o Álvaro

Com o coiso tão bem ministrava.

 

Ai, eu hei-de ir à Assembleia

Ver o coiso que está a coisar

Contra essa horrível coisa feia

Esse coiso que nos quer devorar!

 

Com a coisa faço uma coisinha

Para o coiso sempre a coisinhar

E a oposição ficar coisadinha

Para o coiso pudermos lixar.

 

Era o Álvaro, meu povo, era o coiso

Era a coisa que mais me pasmava

E o coiso, meu bem, o desemprego

Com a coisa coisou e coisava!

 

e o coiso que é o poder
nem por morte, o Álvaro o deixava.

 

 

Cancioneiro Álvaro, pseudónimo de Álvaro dos Pastéis

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Mentes brilhantes

por Naçao Valente, em 15.05.12

 alcoutimlivre.blogspot.com

 

Parabéns. Vossa Excelência senhor primeiro-ministro não pára de me surpreender. Associou o insucesso escolar à pieguice. Encontrou a solução para a crise no empobrecimento. Mas agora superou-se: estar desempregado não pode ser um sinal negativo mas uma oportunidade. Vossa excelência é uma mente brilhante. O desemprego graças a si deixou de ser um drama e passou a ser uma benesse.

Antes da sua descoberta genial era um operário desempregado. Agora passei  a ser um um empreendedor. Mas surgiu uma dificuldade. Não tenho os meios do primeiro cidadão que V. Ex. despediu e foi estudar para Paris, nem possuo os rendimentos daquele cavalheiro que os franceses chutaram do Eliseu e foi veranear para sul com a sua amada. Nem tenho tarimba política para me transformar num empreendedor/comentador de uma estação de TV. Ainda se os banqueiros fossem também mentes brilhantes e me metessem uns centavos nos bolsos. Mas não...

Vossa Excelência tem razão. As dificuldades estão na ordem inversa das oportunidades. Desse modo acabou por se fazer luz no meu espírito. Vou empreeender para junto de um rio selvagem. Não lhe posso dizer qual, para não me enviar o seu mirrado mas eficaz cobrador de fraque e sacar o IVA .Não é que o queira ludibriar. É apenas um lapso a que tenho direito.

Nas suas margens vou construir com os materiais naturais que por lá abundam as instalações da empresa unifamiliar. Começo com uma pequena cabana com chão de Relvas bem espezinhado para acamar. Para já não lhe ponho Portas para poupar para um barquito. No rio pesco cherne (se houver) ou o que vier à rede. Nas encostas caço uns Coelhos que espero assar em lume brando de secos Cavacos. Se encontrar, pois estão em extinção por decreto de V.Ex., apanho uns patos bravos. E seguramente criarei galinhas de bela Krista que espero depenar com muito gosto.

Me perdoe, mas não vou poder seguir as suas ideias geniais. Por lá não há rede de telemóveis nem antenas de TDT.(mesmo onde há não funcionam) Nem vou poder seguir o seu percurso que adivinho brilhante. Quando o país  estiver em auto gestão empreendedora não vão precisar de V. Ex. Chegará a hora da sua libertação. Aleluia! Com tanto brilhantismo vejo-o, por exemplo, a exportar galos de Barcelos, para fazer cabidela.

 

Novo empreendedor muito grato a V. Ex.

 

 torreshopping.pt

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Dote da princesa

por Naçao Valente, em 13.05.12

Quadro pintado por Ticiano (Museu do Prado)

 

Sou rainha e sou mãe. Hoje nasceu o meu primeiro filho, Filipe, de um casamento feliz com sua Majestade o senhor meu primo, Carlos, rei de Espanha. Foi no dia 6 de Dezembro de 1525 que se realizou nas cortes de Torres Novas o contrato de casamento, por vontade do senhor meu pai, el-rei D. Manuel. O meu amado irmão e rei, D. João, teve de pagar um pesado dote de 900 mil dobras em ouro. Nesse dia, que nunca esquecerei, estive em Torres Novas para assinar o compromisso. Era apenas uma princesa, mas antes de mais uma menina simples e despreocupada. Lembro-me de ter chegado a Torres, depois duma longa viagem numa liteira e de a minha comitiva ser entusiasticamente recebida pelo povo, que me aclamou nas ruas até ao Paço.

Retenho na memória para sempre esse dia, que representa o fim de uma vida sem preocupações. Procurei aproveitar esse momento de liberdade e de comunhão com o meu povo, pois sabia que em breve os deixaria. Ao passar pelas ruas vi as gentes do meu país, que apesar das suas agruras e da sua miséria, estiveram  disponíveis para me homenagear.  Novos e velhos, rostos enrugados e mãos calejadas, crianças descalças, mendigos, aleijadinhos, todos vieram com orgulho receber a sua princesa.

Os outros, os cortesãos, senhores nobres, os homens bons do concelho, reservaram-se para os festejos no terreiro, onde houve grande festança. Percorri a feira. Provei os deliciosos doces conventuais, os relaxantes licores. Aí folguei até altas horas ao som da música. Bailei como é do meu gosto até me doerem os pés. Sabia que não voltaria a este lugar nem a esta condição. Deixaria de ser a menina princesa para me tornar rainha, esposa e mãe. Uma tarefa bem mais espinhosa.  

 

(das memórias desconhecidas de Isabel de Portugal, Imperatriz do Sacro-Império Romano-Germânico)

 

 

PS Estive ausente deste local devido a uma viagem relâmpago ao século XVI onde não havia internet, nem computadores, nem blogues mas também nem Passos, nem Gaspares. Havia alarves, embora fossem menos. Mas, em contrapartida, tive a honra de conhecer uma mulher inteligente, culta e lindíssima, a princesa Isabel de Portugal, que por uns breves dias voltou a Torres Novas, para recordar esse acontecimento que muito para além da aprovação de um dote de casamento, teve repercussões dramáticas na história de Portugal. Por razões na altura impensáveis, foi Filipe I de Espanha, seu filho, o primeiro rei ibérico a unir as duas coroas peninsulares. Mas isso são contas de outro rosário.

Vi a princesa desfilar sorridente por entre uma multidão perdida no tempo. Vi uma princesa de faz de conta e que nunca será rainha. Vi um séquito de figurantes desta e doutras princesas. Vi banquete e festa até às tantas. Esqueci-me da mediocradade dos tempos que correm. Das injustiças, mas principalmente, da falta de visão, de futuro e da esperança como forma de estar. Por entre ciganos, mendigos, artesãos, bufarinheiros, monges, camponeses...comi coiratos qb, bebi canecas de água benta, senti o odor de ervas milagrosas, ouvi jograis. E percebi porque é que esta nação tem oito séculos. E antes de regressar a casa, fiquei convencido que, para além dos poderes transitórios que nos desgovernam, esta nação valente será sempre imortal. 

 

MG

 

 

  

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Lapsos

por Naçao Valente, em 11.05.12

Frase da semana:

Eu não minto, eu não engano, eu não ludibrío.

 

Vítor Gaspar na AR

 

Frase esquecida:

 

O corte do subsídios ao sector público é em 2012 e 2013.

 

Vitor Gaspar

 

Frase correctiva.

 

O corte de subsídios apenas em 2012 e 2013 foi um lapso.

 

Vítor Gaspar

 

Significados:

 

mentira-falsidade, embuste, peta....

engano-erro, logro, burla...

ludíbrio-fraude, logro, trapaça...

lapso-falha, lacuna, omissão...

 

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Coisa ruim

por Naçao Valente, em 07.05.12

nerwensurion.blogspot.com

A Alemanha é fértil em invenções nocivas. Inventaram o nazismo e correu muito mal. Inventarem a austeridade e está a correr mal. O autoritarismo nazi fez-se para limpar o mundo de raças inferiores. O autoritarismo da austeridade está a fazer-se para subjugar os povos europeus aos interesses da grande Germânia.

A austeridade é apresentada aos indígenas( leia-se gente do sul) como uma nova religião que nasceu para castigar os preguiçosos e gastadores. A salvação passa pelo empobrecimento rápido e pela humilhação dos povos.

A papisa Merkel tem fiéis seguidores em todo o velho continente. Por cá já temos o Cardeal Cavaco e os bispos Coelho e Gaspar, bem assessorados por uma bem montada rede de tele-evangelistas. A mensagem é simples: arrependei-vos e adorai a austeridade.. A austeridade é a salvação.

Prefiro ser hereje desta religião. A austeridade não é uma coisa boa, é uma coisa ruim. É o fim do progresso, é o fim da justiça social, é o fim da dignidade. Urge regressar às catacumbas e começar a revolução subterrânea contra os demónios da finança e da exploração Urge restaurar os valores do humanismo cristão.

 

MG

 

PS. Teremos em Hollande um novo apóstolo da libertação? 

 

 

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