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Serrenhos e marujos

por Naçao Valente, em 30.08.11

    monscicus.blogspot.comapolo-hotel.com

 

A globalização derrubou distâncias, uniformizou costumes, desfez identidades. O padrão cultural personalizado esbate-se, desfaz-se perante a cultura universal de massas comandada pelo consumismo. A individualidade de pequenas comunidades e os seus ritmos ancestrais estão a ser devorados pelo progresso tecnológico. Torna-se indiferente nascer em Trás-os-Montes, Freixo-de-espada-à-Cinta ou Cabeça Gorda (Alentejo profundo). A universalidade da galáxia comunicacional infecta-nos em toda a parte. Apesar disso, quando viajo por esse Portugal menos conhecido procuro encontrar através da neblina da modernidade, algum resquício do passado genuíno dessas comunidades. Tarefa difícil entre catedrais de religiosidade religiosa e catedrais de religiosidade profana dos novos papas Belmiro ou Soares dos Santos. Com algum esforço de presença e de memória consigo vislumbrar alguns traços de genuinidade nas expressões, nos falares e nalguns costumes. Foi o que aconteceu quando viajava pela serra algarvia onde ainda se pode advinhar a matriz do Algarve do século passado. E aí lembrei-me da distinção que pautava o quotidiano entre serrenhos e marujos.

 

Serrenhos e marujos eram comunidades que se orgulhavam da sua identidade regional, baseada em vivências decorrentes do meio que moldava a sua personalidade colectiva. Estas designações fruto da especialidade geográfica e profissional carregavam consigo rivalidades e tinham um saudável significado pejorativo. Mas serrenhos e marujos estavam obrigados a conviver em complementaridade como forma de garantir a própria sobrevivência. Os da serra percorriam dezenas de quilómetros subindo e descendo, com as suas botas cardadas, montes pedregosos, atravessando a vau riachos sazonais, para vender os produtos que o seu suor roubava à terra nem sempre generosa. Os do litoral saiam das suas cabanas ribeirinhas, protegendo da aspereza dos caminhos os pés calejados com alpercatas quando as tinham. Às costas carregavam canastras serranas cheias de petingas e carapaus que trocavam por uma medida de azeite ou um apetitoso pão. Tirando este intercâmbio, funcionavam como mundos paralelos que não se interpenetravam e mantinham intactos costumes expressos na gastronomia, no vestuário, nas actividades lúdicas e até no linguajar. Contudo, quando um serrenho tinha necessidade de pernoitar na vila do litoral havia sempre um marujo convertido, com raízes serranas, que o acolhia com toda a boa vontade. Ao fim e ao cabo serrenhos e marujos eram gentes que na sua diversidade cultural enriqueciam e cimentavam a grande comunidade lusa. Paradoxalmente, o progresso que uniformizou diferenças regionais contribuíu para descaracterizar a unidade cultural que distinguia um país com uma história impar.

 

MG 

 

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O Cirano de Valongo

por Naçao Valente, em 20.08.11

 

Nas minhas deambulações por esse Portugal desconhecido fui parar à cidade de Valongo na periferia do grande Porto, terra, como tantas outras, onde se passa como cão por vinha vindimada a caminho de grandes ou médias metrópoles. Por lá fiquei dois dias, respirando o ar valonguense e tentando sentir o pulsar próprio de uma localidade já muito descaracterizada pela globalização cultural. E pude perceber ainda alguns laivos da sua genuidade, nalgum comércio tradicional, no património e nos resquícios da indústria, com destaque para a extracção de ardósia desde o século XIX.

Durante a minha estada nesta milenar povoação (anterior à ocupação romana) lembrei-me do Marques, um soldado da nação que conheci numa bataria(1) do Regimento de Artilharia de Costa da Trafaria, no início dos anos setenta. O Marques, como todos os outros militares, tinha para além do nome oficial a habitual alcunha. Era conhecido como o Nariz (epípeto que não lhe causava qualquer complexo), devido ao enorme apêndice nasal que lhe ornamentava o rosto. Se os conhecimentos literários daquela juventude militar fossem outros ter-lhe-iam chamado com mais romantismo, o Cirano de Valongo.

Esta, como outras almas com as quais nos cruzamos, acidentalmente, ao longo da vida, esfumou-se depois de ter passado à peluda e regressado ao seu rincão natal. Enquanto calcorreie as ruas da povoação e frequentei os seus locais públicos, fui olhando para os caras mais envelhecidas pela inexorável marcha do tempo, para ver se delas se projectava algum facundo nariz. Em vão. Acabei por abandonar Valongo um pouco desiludido, pois ia com intenção de ajustar contas com o Cirano da terra, pela vergonha, susto e desprestígio que me fez passar, enquanto substituto do comandante do pequeno aquartelamento. Pois não é que o Marques, durante um serviço de sentinela nocturna, adormeceu no seu posto, no momento em que o dito comandante, quase sempre ausente, resolveu invadir o quartel depois de uma noitada de mulheres e copos e não vendo vivalma que o impedisse desatou aos tiros pondo toda a gente em polvorosa.

Não pude desta vez levar a cabo o meu projecto de ajuste de contas, mas tenho intenção de voltar a Valongo e nessa vez quem sabe.

 

MGImagem retirada de afamaran.zip.net e que me faz lembrar o Marques 40 anos depois.

 

1-Pequena unidade militar composta por peças de artilharia de defesa costeira e respectiva guarnição.

 

 

 

 

 

 

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Aldeias

por Naçao Valente, em 16.08.11

Foto fornecida pelo Panoramio e está protegida sob copyright do proprietário

 

Agosto transpira ócio por todos  por todos os poros. Correrias e mais correrias, canseiras e mais canseiras até ao litoral. Sofreguidão e mais sofreguidão por um pedacinho de mar e uma torreira de sol. O Algarve em boa hora conquistado pelos nossos reis, mas nunca totalmente convertido da moirama,  está invadido por um exército de milhares de cavalos de explosão. Poluem, poluem , poluem e carregam o ar com os seus odores "dieselantes".

Bem pertinho mesmo ao lado existe outro Algarve, bem mais genuíno, bem mais português. Bem pertinho existe outro país, bem mais autêntico. É o Portugal das aldeias à espera de reassumir a sua pujança. A propósito recupero um texto que aqui publiquei à cerca de um ano e que continua a ter actualidade: 

 

Nasci e cresci numa aldeia. Era uma aldeia parecida com tantas outras. Era uma aldeia cheia de gente e de vida. Gente simples, gente modesta, gente feliz à sua maneira. O trabalho era o lema do dia a dia. Mas num quotidiano de trabalho duro havia sempre tempo para conviver de forma singela e saudável. A convivência aprendia-se na família e continuava na escola. A escola ainda separada por sexos fervilhava de vida, de alegria de entusiasmo. A escola era a imagem de uma comunidade cheia de vitalidade. 

 

Nos anos sessenta um processo tardio e desregulado de desenvolvimento começou a destruir a minha aldeia. A emigração e a migração começaram  

 a levar pessoas para horizontes mais promissores. A aldeia foi-se despovoando. Apenas ficaram alguns resistentes, fiéis, quase religiosos da agricultura de subsistência. A Comunidade Europeia destruiu o que restava das actividades tradicionais. Os mais idosos foram desaparecendo. Para os mais novos a alternativa é migrar. Mas há alguns que continuam a resistir. Merecem ser apoiados, pois são a esperança que resta para que a aldeia sobreviva. E pode renascer se houver vontade política de vistas largas, de desconcentração, de reordenamento, de regresso ao passado mas com futuro. A minha aldeia , que são todas as aldeias, pode voltar a ser um lugar de vida plena.

 

MG

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Maria Martins

por Naçao Valente, em 07.08.11

 

Quem é Maria Martins? uma atleta de de top, uma artista de musicall, uma estrela de telenovelas? Maria Martins é uma anónima cidadã e pastora de cabras nas serras transmontanas. Conhecia-a acidentalmente numa reportagem TVI a guardar as suas cabras numa encosta inóspita. Já ultrapassou as sete décadas de vida e continua fiel à vida que sempre viveu. É a imagem do Portugal do passado: rural, simples, bucólico. Do Portugal que vivia de forma austera, do Potugal  que não consumia acima do que produzia. Pode-se dizer que era um Portugal salazarento, triste, pobrete, atrasado, mas que sabia que a riqueza vinha do trabalho.

 

Os novos tempos trouxeram progresso, bem-estar e melhoria de condições de vida, o que é justo e positivo. Mas quando o progresso assenta numa falsa prosperidade, baseada num consumismo suportado num crédito fácil, mais tarde ou mais cedo ruirá como um baralho de cartas. Maria Martins, rosto de um passado é simbolicamente a imagem do que pode ser também um Portugal de futuro tecnológico, mas com uma matriz de trabalho e aproveitamento de recursos, bem visível na capacidade de tirar riqueza onde parece não existir, como o provam as suas cabras.

 

MG

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Muda o governo, mudam as análises

por Naçao Valente, em 05.08.11

 

A política é uma porca na visão cartoonista de Bordalo. Esta imagem resiste à passagem do tempo na sua actualidade. Durante a vigência do governo socialista assistiu-se a uma retórica de descredibilização da acção governativa em crescendo, propalada na comunicação em geral e na blogosfera em especial. A campanha chegou ao ponto de falta de respeito por qualquer princípio ético ao acusar mais a competência dos governantes do que as políticas. Tudo se resumia a um axioma simples: a crise internacional era uma miragem e todos os males do país eram provocados por uma governação de malfeitores, únicos responsáveis por um desenvolvimento económico errado de décadas e uma dívida soberana acumulada por vários governos.

 

Mudou o governo mudaram as análises: Antes os PECs eram resultado de incompetência, agora os novos PECs (troikas externa e interna) são políticas correctas e patrióticas. Antes a culpa era toda do Sócrates, agora somos condicionados pela situação externa. Antes os outros ( Alemanha, França, EUA) eram detentores de processos exemplares, agora são factor de desestabilização. Antes os ditos mercados eram sacrossantos, agora são dirigidos por gananciosos. Entretanto o que mudou? Os PECs, a situação externa, ou outros, os mercados? Olho o antes e o depois e só vejo uma mudança: a da maioria que nos governa. Bordalo continua a ter razão. A política é uma porca.

 

MG

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Heresias

por Naçao Valente, em 01.08.11

 

paideia-idalinajorge.blogspot.com

 

Heresia define-se, genericamente, como linha de pensamento contrária, de um sistema doutrinal instituído no campos religioso, filosófico, político, científico ou artistico entre outros. Foi nesse sentido que as estruturas oficiais do catolicismo, tiveram que combater vários movimentos desviantes  da sua doutrina oficial, que punham em causa princípios fundamentais da sua ortodoxia. Por outro lado, o progresso científico ao contrariar a visão bíblica do mundo, era encarado como uma ameaça contra a religião, como o demonstram as perseguições a Giordano Bruno e Galileu.

 

As evidências científicas acabaram por obrigar as hierarquias do catolicismo a adaptar-se aos novos tempos e a reconhecer erros e intolerâncias do passado, com benefícios para a sua própria credibilidade. No fundo, trata-se de dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, para usar a formulação usada por Jesus Cristo. Mas para além desses progressos, os dirigentes da Igreja cristalizaram na defesa de princípios, hoje completamente ultrapassados pela evolução social e política. E apesar de todos os ares de democraticidade, a hierarquia católica não é capaz de admitir de facto, a igualdade entre sexos no acesso aos cargos religiosos.

 

D. José Policarpo, que dedicou toda a sua vida ao catolicismo, foi uma vítima recente, dessa visão misógina do conservadorismo católico, que teima em vedar o sacerdócio às mulheres, colocando-as como uma espécie de católicas de segunda. A abertura de D.José e de outros homens da Igreja ao sacerdócio feminino, é uma pedrada no charco estagnado, onde pontificam as altas figuras eclesiásticas. E ao assumir publicamente a sua heresia, sendo obrigado a abjurar, como Galileu, perante a justiça dos fariseus do tempo, colocou-se ao lado do espírito humanista e igualitário que está na génese do cristianismo. Um dia será a própria Igreja a reconhecer-lhe a razão que já tem.

 

MG

 

 

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