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histórias da aldeia

por Naçao Valente, em 12.10.09

 

Um dia de anos

No dia em que ia fazer onze anos José acordou, como sempre acontecia, com a luz matinal que de mansinho escorria pelas frinchas do caniço. A tenebrosa escuridão que o mantinha escondido, entre a enxerga e o cobertor, ia desaparecendo tal como os medos que à noite lhe povoavam a mente.

Percorreu ensonado o corredor que o levava até à pequena cozinha da casa dos seus avós com quem vivia por opção. Da esculateira desprendia-se o aroma do café de cevada que todas as manhãs lhe aconchegava a barriga. Sentou-se na acanhada e tosca mesa. A avó Maria, alta, magra, quase esfíngica, colocou numa tigela de barro as sopas de café, cheirosas e fumegantes.

O avô José Carpinteiro, pequeno mas maciço, regressou da sua ida até à venda do Serafim, volta que dava todas as manhãs para “matar o bicho”. Olhou para o moço e disse:

-Hoje vamos pescar p’ra a ribeira. Temos de apanhar peixe para fazer uma assada. O neto ouviu e após um breve silêncio retorquiu timidamente:

-Mas eu não sei pescar, nem tenho cana de pesca. José Carpinteiro saiu da pequena cozinha de pedra solta e passados breves minutos regressou com duas canas de pesca.

-Aqui estão as canas - disse. Pega na tua e vamos partir. Temos uma longa caminhada pela frente.

José  Carpinteiro e o neto partiram em direcção ao local da pescaria. Calcorrearam as margens da ribeira durante cerca de três quilómetros. O moço nunca tinha percorrido aquele caminho Observou as cores policromas da vegetação ribeirinha Ouviu os sons dos barrancos a correr e os cantos matinais dos pássaros. Assustou-se com o resmalhar dos pequenos arbustos. Seria a manhosa raposa ou a sibilina cobra? Mas sentia-se seguro junto do seu avô.

Chegaram às Pernadas, sítio onde se juntavam duas ribeiras, que tinham decidido unir-se para enfrentaram com mais coragem a sua entrada no grande rio. O silêncio quase assustava. Não se via vivalma. Afinal era domingo., dia de descanso. De repente, a silhueta de uma figura humana desenhou-se no horizonte. Quem será? - pensou José A  figura tornou-se cada vez mais nítida. Não tinha sapatos e vestia uma roupa suja e gasta. José pensou que seria mais um pescador solitário, pois trazia consigo uma cana de pesca.

- Bom dia - disse o homem.

-Bom dia - respondeu o avô. Será que temos peixe?

O homem fez um gesto enigmático e continuou o seu caminho. José Carpinteiro olhou para o neto e comentou:

-Hoje só temos a companhia do “descalço”.

“Descalço” era uma pessoa estranha àquela pequena comunidade rural, embora nela se integrasse temporariamente. Era caldeireiro de profissão e todos os anos aparecia com as chapas e martelos. Arranjava tachos e panelas, fazia tabuleiros de lata, e depois partia, tão discreto quanto chegara com os seus parcos haveres. Ficava apenas a sua sombra: os pequenos trabalhos, os poucos proventos, a aparente boa disposição, quando ao fim do dia o vinho escorria sem cessar pela sua goela.

Os dois pescadores instalaram-se num pequeno terraço, junto à margem e preparam-se para iniciar a pescaria. José notou que a água estava ludra mas serena. José Carpinteiro carregou os anzóis com minhocas e explicou ao aprendiz de pescador como devia proceder.

-Quando o peixe picar e esticar o fio, puxa logo a cana!

José, tinha esperança que os peixes o ignorassem. Não se sentia nada seguro. Atirou o fio para dentro de água e esperou. Quando a cana estremeceu puxou-a. Agarrado ao anzol vinha um peixe prateado que se contorcia para ganhar a liberdade. José tentou agarrá-lo, mas era escorregadio e viscoso. Soltou-se da sua minúscula mão, procurando freneticamente voltar para casa. E teria voltado, se o avô não o tivesse apanhado com a sua mão forte e sapuda. Era um belo exemplar de barbo, escamas largas e douradas. Brilhava ao sol. O avô pô-lo no velho cesto de cana.

Para o pequenito aquele peixe parecia uma prenda impossível. Era como se tivesse a missão de dar-lhe os parabéns pelos seus onze anos.

O avô voltou a alimentar-lhe o anzol. O moço lançou-o de novo para o pego. Outro peixe picou e a cena repetiu-se… O cesto enchia-se com os reluzentes barbos.

Ao seu lado o avô lamentava-se: - Na minha cana não pica nenhum…

-Deixe lá avô, já apanhámos bastantes.

O “descalço” voltou a passar junto a José Carpinteiro e ao seu neto, com ar cabisbaixo e desiludido, remordendo entre dentes:

- Vou-me embora. Hoje não consigo apanhar nada. Parece que os malditos se zangaram comigo.

-Pois comigo também - respondeu-lhe José Carpinteiro. Só picam na cana do moço. E têm razão. Afinal ele é que faz anos!

Quando a hora do almoço se aproximava, regressaram a casa com o cesto bem atulhado.

A avó Maria juntou uns cavacos e fez uma fogueira nas traseiras da casa. Logo que as labaredas se cansaram de crepitar, o avô pôs os peixes numa grelha de ferro, sobre as brasas. De vez em quando remexia-as, fazendo-as reviver por entre o nada do fogo.

José, seguia a cerimónia com ansiedade. Crescia-lhe a água na boca a pensar no esperado pitéu. Finalmente o avô anunciou:

- Estão prontos. Vamos a eles!

Vá-se lá saber porquê, José não voltou a pescar. Do gosto do peixe já não se lembra, mas guardou na memória aquele dia como o início de um novo tempo na sua vida.

 

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