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Tempo de comboios

por Naçao Valente, em 15.02.18

No comboio dos atrasos vai gente que a gente esquece
Vai quem nunca chega a horas e às vezes nem aparece
Devagar devagarinho eu conheço tantos casos
De quem passa a vida inteira não comboios dos atrasos

                       Sebastião Antunes

No tempo, quase mítico, em que os comboios chegavam até a sitos recônditos de Portugal, eu fazia viagens com minha avó. Para ela, eram viagens de saudade para rever os filhos e os outros netos, que as distâncias, hoje curtas, tornavam difícil. Para mim, ainda não cota, nem diano, ia pelo prazer de sair daquele horizonte limitado, por serras que nos encerravam num microcosmos, só quebrado pelas ondas hertzianas, que moravam na taberna (chamada venda) do Armandinho, digo senhor Armandinho. (dobra a língua dizia a avó)
Saíamos, na velha camioneta, quando a luz jorrava por detrás dos montes, onde fora repousar das agruras de um dia duro. Depois de horas de sobe e desce, onde parecia que os serros é que se deslocavam, chegávamos à antiga Pax Júlia romana, hoje dita Beja. Aí repousávamos numa pensão familiar, onde os hóspedes transitórios seroavam contando histórias de vida, algumas mirabolantes, que muito me encantavam.
Ao romper de mais um dia íamos até à estação ferroviária, onde as locomotivas, expelindo fumo, como fumador viciado, se preparavam para rebocar carruagens cheias de vidas em movimento. Anciãos com os seus fatos de serrobeco, velhas senhoras com os seus longos vestidos de chita, e o inseparável lenço na cabeça, algumas damas de ouro e alguns valetes aperaltados, dividiam-se no cais para tomarem o seu lugar. Nós íamos na carruagem de terceira, com bancos de pau envernizado. Outros iam em segunda ou em primeira de acordo com as suas posses, mas todos partíamos e chegávamos à mesma hora.
Quando o chefe da estação levantava a bandeira e soprava um apito estridente para dar a partida, aquela geringonça, gemia num som de ferros que se afagavam, e arrancava aos solavancos como se tivesse pouca vontade de ir a algum sítio. Depois, a pouco e pouco, “pouca terra, pouca terra”, ganhava confiança e velocidade, deixando espantada a passarada, que pousava sem pagar bilhete no seu telhado. O fumo saído da chaminé da máquina, escorria ao lado das janelas, sobre as quais era proibido debruçarmo-nos. Um vendedor de tecidos, muito viajado, entretinha os outros passageiros, com as suas aventuras ferroviárias. Uma delas deixava-me, na minha ingenuidade verdadeiramente  assustado. Dizia o fulano, que um dia o comboio se incendiou, e que teve de saltar pela janela, mas acentuava, só depois de atirar o fardo de fazendas, a sua riqueza e porque isso sim tinha que se salvar.
Na nossa viagem tínhamos de mudar pelo menos duas vezes de comboio, informação que a minha avó, semianalfabeta, mas muito desenrascada, conhecia a preceito. Nunca se enganou, num transbordo. A técnica dela era simples: quando chegava a uma estação de mudança, perguntava a um funcionário, a que horas e em que linha parava o nosso comboio. Recebida a resposta, voltava a fazer a mesma pergunta a outros ferroviários. Não haja dúvidas, método científico infalível. Só depois de testar a informação, várias vezes, com o mesma  resposta estava garantido o resultado.

Neste comboio, ronceiro, não havia muitos atrasos, nem gente que andava sempre atrasada. E se em cada estação mudavam as pessoas continuava a mesma convivência simples e despretensiosa. Era um país sem pressas, que ali viajava, mas que chegava sempre a qualquer lugar. Não havia cotas e muito menos dianos. Havia velhos, moços, de todos os géneros e feitios , bias, tós, chicos, manéis, zés, como este escriba, com pouco ou nenhum tempo,  para estados d`alma depressivos. Palavra de escuteiro do
Cota-diano
E para quem gosta de uma canção tradicional, aqui vai o link: o comboio da Beira Baixa:

 

 

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publicado às 21:47

Campeões

por Naçao Valente, em 11.02.18

 

IC2H40D3.jpgImagem Sapo

 

 

Nós portugueses temos uma história rica de êxitos. Vejam-se alguns exemplos: Afonso Henriques deu tareia na mãe quando esta andava de mesa e pucarinho com um tipo lá das "galizas"; Nuno Álvares Pereira deu uma coça de criar bicho nos Castelhanos, quando achavam que nos iam dar uma cabazada; João IV ganhou a guerra aos espanhóis num "campeonato" a  várias mãos; e até os franceses levaram para contar, quando nos quiseram tirar a "taça"; na expansão marítima fomos os primeiros no mundo. Em todas estas provas fomos campeões. Temos estofo de campeões, mas não acreditamos. Temos de começar a acreditar.

Os rapazes do futebol de cinco, agora futsal, deram hoje aos espanhóis, que são e sempre foram mais que nós, uma lição de vontade de ganhar. Ficaram a saber com quantos paus se faz uma canoa. Somos um país pequeno em dimensão, mas com uma alma tamanho do mundo. Quando queremos fazemos, porque sabemos fazer. Muito bem malta do futsal, o mundo está aos vossos pés. Portugal rima com campeão.

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publicado às 00:07

Crónica para a Marta, que não a lerá

por Naçao Valente, em 08.02.18

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Depois da má experiência com a visita ao massagista redimi-me e voltei às meninas. As mãos das meninas da fisio são muito mais delicadas. Desta vez fui recebida pela Marta que me inspirou e a quem dedico esta crónica que nunca lerá. Não porque não queira mas porque não tem tempo, e porque não sabe que escrevo e publico no Escritartes, que fez dez felizes anos. A Marta é uma moira de trabalho. Quase só trabalho.No centro de fisioterapia, onde labora, não tem mãos a medir. Anda entre gabinetes numa roda viva. Tão esguia que parece transparente. Tão rápida que quase não se ve. Tão discreta que não sei se existe.
-Bom dia senhorita Marta
Entre para o gabinete 1. Já vou aí, diz uma voz saída de um dos vários gabinetes.
Despojo-me dos trapos que encobrem as adiposidades e imperfeições da pele curtida por muitos anos de labuta diária. Quando a Marta chega, formosa mas apressada, já estou preparado para a sessão de restauro. Enquanto as suas delicadas mãos afagam com saber os músculos rebeldes, cantarola uma melodia que ouve no som ambiente. E vai relaxando o corpo e o espírito Uma moleza doce começa a invadir-me. Terminada a massagem, a Marta põe-me umas placas  quentes no lombo, e liga-me o braço à corrente eléctrica.
Senhor José diga se está de mais?
Cuidado Marta não vim cá para ser electrocutado. Reduza lá isso.
E aí vai ela a correr para outro paciente. Pouco sei sobre a Marta. Em pouca conversa ou em conversas cruzadas, sei que gosta de cozinhar e faz muito bem bolachas, que tem um irmão bombeiro, que estando de baixa na altura dos incêndios foi pedir alta que não lhe foi concedida, e ficou muito triste.
-Feita apenas de voz a Marta pergunta: -Senhor José se as placas estiverem muito quentes, avise-me
-Está mesmo muito quente senhorita.
-Já lhe vou pôr mais toalhas.
-Fico à espera, mas veja se chega antes de eu estar assado para o jantar.
Entretanto aproveito a boleia do calor, fecho os olhos e quando dou por mim estou nos braços de Morfeu, até as mãos delicadas da fisio me resgatarem do mundo dos sonhos.
-Por hoje está despachadinho, senhor José
-Quer dizer que amanhã há mais. Cá estarei.
Parto para outra, enquanto a Marta é engolida por um qualquer gabinete. Nos dias seguintes a cena repete-se. Até já a assumi como uma rotina onde a soneca é a cereja em cima do bolo.
Mas nada se pode dar como adquirido e o que é bom nem sempre dura. Eis que chega uma nova paciente. Ocupa o gabinete que fica ao lado do meu, e deu logo para perceber que tinha a síndrome da tagarelice. Talvez por não se ter apercebido, que a cortina de plástico que faz a divisória, não tem insonorização, não deu descanso à língua, aos ouvidos da Marta, aos meus e aos de quem não seja surdo. Num abrir e fechar de olhos pôs a vida a nu. Assim fiquei a saber que era professora, quarentona, que não há jovens nas salas de professores e que ia a banhos para Monte Gordo.
E a Marta:  pois…sim…eu quando vou à praia…não gosto de lagartar ao sol…
 Quero lá saber da vida da gralha?  De quantos namorados teve, de quantas vezes faz sexo, de qual é a melhor posição. Ou se foi manjar a um estrela Michelin do chefe Avilez, se foi muito feliz em Veneza, se usa bikini ou gola alta, se viaja muito. Quero lá saber? O que eu quero é dormir. Meu rico soninho.
E a Marta: pois…sim…eu gosto de cozinhar e sem demérito faço um arroz de marisco de lamber os beiços.
Perguntei à Marta quantos sessões faltavam para acabar o tratamento.
-Faltam cinco, senhor José.
Dispenso. Acho que já não preciso.
Fosse porque tinha que ser ou por milagre o facto é que fiquei muito melhor. Até ver não vou precisar da fisio. E se voltar a precisar, espero que a gralha tenha ido para as Selvagens falar com as cagarras. Mas agora ainda admiro mais a Marta. Não só pelas suas mãos de fada, pela sua faceta canora,  mas pela pachorra com que foi dotada para as agruras dos cota-dianos

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publicado às 23:28

Conversa de chacha

por Naçao Valente, em 02.02.18

Há quem diga que a idade está na cabeça, mas o corpo passa ao lado de teorias e segue a normal marcha da natureza. Por mais que diga ao meu que não seja queixinhas, que não se deixe abater por uma dorzinha aqui, uma ardor acolá, um mal estar “acoli”(aiaiai) não me ouve. Não ouve mesmo. Vai daí, por mais que diga ao meu ombro que não ligue ao protesto dos tendões, e ao seu choradinho, o facto é que não se cala. É pior que bebé chorão. E tanto me chateou que lhe fiz a vontade e levei-o ao massagista. Estava sentado na sala de espera, com direito a senha e a ecrã plano de televisão, quando saiu do gabinete de massagens um paciente seguido do de um matulão “praí” de um metro e noventa. Reparei nas manápulas que saiam das mangas da bata branca. Era o homem das massagens. Mandou-me entrar e depois de um breve diálogo pediu-me para me deitar, em cima de uma marquesa. -Dispa-se, deite-se de bruços e imagine que está em cima de uma marquesa de verdade, disse Nada mal para começo de tratamento. O cavalheiro mostra sentido de humor, embora brejeiro. Aceito, como processo de descontrair o paciente e criar proximidade. Palavras não eram ditas comecei a sentir a delicadeza das manápulas no meu lombo. Pancada de criar bicho. Aguenta por seres queixinhas, disse no recesso da intimidade corporal. Até a marquesa gemeu, mas foi de dor. -É pá, a sua coluna tem mais curvas que a estrada do Sabugueiro. Ainda é muito novo para estar neste estado. Agarra-me no braço puxa, puxa, roda, roda, de tal modo que este parece uma ventoinha a sair do eixo. Será que ainda está agarrado ao corpo? -Não sou assim tão novo, respondi timidamente. Pelo menos já tenho idade para ter juízo e não me meter nestas alhadas, pensei… -O quê? Não lhe dava essa idade! Se tirar as banhas e pintar o cabelo, até parece um jovem. Sabe o que lhe digo? Saia do sofá, vá caminhar, olhe para as gajas, para as novinhas claro, vai-se sentir melhor. O braço ainda está no seu lugar. Até ver. E vem mais pancada. Agora dá-me um apertão tão forte na carcaça que senti que o esqueleto se separava da musculatura. Se é que ainda tenho esqueleto no verdadeiro sentido do termo. -Pois é…coluna toda empenada…é uma pena. Caminhe…olhe para as tipas…velhas não…faça sexo…endireita a espinha e outras coisas, como o ânimo, bem entendido, sentencia o massajador. Nem dou troco à conversa. Palavras para quê? Quero é que o matulão acabe para sair dali, mas continua e volta ao braço, Roda, roda, roda, roda Roda, roda, sem parar Tanto roda, tanto roda, Que ao lugar há-de voltar Porra, além de torturador também é versejador. Deixo-me levar na onda para ver se o tempo passa. Mentalmente vou dizendo, Soda, soda, soda, soda Soda soda sem parar Deixa-me o braço num oito E ainda tenho que pagar Quando nada o fazia prever, volta o apertão da ordem. Desta vez penso que me vão sair as miudezas pela boca, mas vá lá, ainda conseguiram voltar ao seu sítio, ou quase. -É o que lhe digo comece por caminhar cinco quilómetros, dez quilómetros e depois sexo. Tem que ser, você parece um puto, tem que viver como tal… -Puto que o pariu. Quilómetros e quilómetros de sexo. Mas onde é que eu estou? Numa sala de massagens, numa câmara de tortura, ou num consultório de sexologia? A medo arrisco dizer: “não se atrase, tem muita gente à espera”. -Terminámos e não se esqueça dos meus conselhos. Aplique a minha receita e não se arrependerá. Uff! Vamos lá ver, se ao menos consigo caminhar. Quanto ao resto logo se vê. Há, se alguém tiver um corpo queixinhas, ou achar que exagero, tenho o cartão do fulano e recomendo.

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publicado às 22:10

A menina dos olhos de amêndoa

por Naçao Valente, em 31.01.18
 
 
Entrei a carruagem do metro a uma hora tardia. Hora morta, diz a voz corrente. Pouca gente e muitos lugares vazios. Sensação de vazio. Sentei-me num lugar junto à janela. Reminiscência da mítica idade infantil, quando fazia birra para ter um lugar com vista para a paisagem, nos comboios que  “pouca terra, pouca terra”, pintavam a paisagem de cinzento, com o fumo que exalavam, como fumador viciado, da chaminé da máquina a vapor.
Reparei que à minha frente se sentava outro passageiro da noite, melhor, outra passageira, de longos brincos nas orelhas e olhos amendoados. Sem dúvida uma asiática das terras de além mar. Trocámos um primeiro olhar fugidio. Pareceu-me vislumbrar um discreto sorriso na sua boca bem desenhada. Ao seu lado repousava um trólei de viagem. Não sou, por timidez congénita, de meter conversa com estranhos. Nunca sei como começar. Dei voltas aos miolos para ver se encontrava um pretexto. Nada. Para mais não sabia que língua ela falava. Em línguas estrangeiras sou um desastre. Costumo citar Eça para me consolar: “devemos falar bem português, as outras línguas mal, orgulhosamente mal”. Retraí-me.
Numa segunda troca de olhares a menina de olhos de amêndoa sorriu e num português bem perceptível disse:
-Senhor, para ir para a Pousada da Juventude, saio nas Picoas?
Decerto já tinha sido informada, mas quis confirmar. Fez-me lembrar a minha avó quando viajávamos de comboio e tínhamos que mudar de linha. Fazia sempre a mesma pergunta a diferentes funcionários. Nunca se enganava.
-Acabei de desembarcar no aeroporto e é a primeira vez que faço este percurso. Venho do Japão, Nagasáqui. Vou estudar para a Faculdade de Letras.
-Sim, sai nas Picoas. Como se chama? disse, para tentar alguma aproximação
-Sou KumiKo
O que me veio à mente, via memória, foi uma personagem da Crónica do Pássaro de Corda de Haruki  Murakami.. A mulher do protagonista, chamado Toru, desaparecida no enredo da história. O mesmo nome. O cabelo preto curto. A vivacidade no olhar. Mas não podia ser. Simples coincidência. As personagens da ficção estão enclausuradas nas páginas impressas e só vivem na imaginação do seu criador, o autor, ou na recordação dos seus leitores.
-Também saio nas Picoas. Se não se importar ajudo-a a chegar à Pousada.
 E mesmo que não saísse passei a sair. Não ia deixar a menina sozinha aquela hora tardia, embora ela me parecesse bastante destemida. Também, em tempos idos, andei perdido no metro de Milão à procura de uma Pousada, e houve uma alma caridosa que me deu a mão.
-Fala bem português, disse para continuar conversa.
-Comecei a estudar português na Universidade porque me interesso pela cultura portuguesa. Venho aprofundar esse estudo. Tomei contacto com essa cultura no Secundário onde se faz alusão à importância dos portugueses na história do Japão e na sua unificação, para além de serem os primeiros europeus a chegar ao Japão. Se for possível quero, aqui, ensinar o japonês.
É verdade, pensei. O mundo é pequeno. Quatro séculos depois de três ousados aventureiros lusos, terem demandado, numa “casca de noz”, as costas japonesas, então isoladas do resto do mundo, vejo uma menina de olhos de amêndoa a aventurar-se num subterrâneo desconhecido de Lisboa, à descoberta de Portugal. Tantos séculos depois de homens montados numa cruz, onde acabaram por ser crucificados, talvez por terem convertido milhares de japoneses, aí está uma menina de Nagasáqui , confessa católica, possivelmente   descendente de mártires do século XVI, a conhecer o país dos namban (bárbaros do sul) . O mundo é mesmo uma grande aldeia apesar de haver quem queira dividi-la com muros em cada esquina.
A menina dos olhos de amêndoa ficou em segurança na Pousada. Palavra de escuteiro. Diz o ditado que “burro velho não aprende línguas”, mas se Kumiko  vier a dar aulas de japonês talvez ainda vire burro novo e lá estarei a aprender, como um bom aluno. E quem sabe se ultrapasso a minha inapetência para línguas estrangeiras. Para Já fica garantido esse compromisso na crónica do
Cota-diano.
 

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publicado às 19:36

Amor às livrarias

por Naçao Valente, em 29.01.18

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 Livraria Lello, um local de culto, com o seu altar. Imagem NET.

 

Na aldeia onde eu nasci não havia livrarias, mas havia livros. Na casa do meu avô, alguns, na pequena biblioteca da escola, mais alguns, na biblioteca itinerante Calouste Gulbenkian, muitos mais. Foi aí que começou a minha relação com os livros, sempre aberta, curiosa, expectante.

Nem nas pequenas vilas concelhias as livrarias eram vulgares. Quando muito, havia papelarias que vendiam alguns livros. Se quisesse entrar numa livraria tinha de ir a uma capital de distrito, onde existia uma ou outra. Mas livrarias de grande dimensão só se mantinham nas maiores cidades. Assim o contacto com os livros não era nada fácil.

Apenas quando passei a residir na capital do país é que tive oportunidade de ter acesso a uma livraria digna desse nome. No entanto, nessa altura as livrarias eram muito diferentes do que são hoje. Mais intimistas, mais personalizadas. Recordo as da baixa lisboeta, algumas já desaparecidas. Recordo os velhos alfarrabistas. Recordo a antiga Barata nas avenidas novas.

Hoje, os livros, ganharam carta de alforria e estão ao alcance do leitor nos ditos supermercados, em convívio com detergentes, bolachas, ou bebidas. É aí que melhor sobrevivem à escassez de locais próprios de venda. Mas, para mim, o encontro com livros continua a ser nas livrarias. E embora elas se insiram nos grandes espaços de consumo, continuam a fazer-me o apelo de sempre. Ali começa o meu encontro com o livro, o primeiro bate-papo, que muitas vezes acaba em união de facto, quando o trago comigo como um amigo para a vida. Ali me perco e me encontro, nas páginas de um livro aberto.

A livraria é como a igreja para o crente. Um local de culto ao saber, preso no papel impresso, mas ao mesmo tempo livre para ser descoberto por qualquer leitor interessado. Uma religião aberta, sem dogmas, sem credos, tão livre, como o livre pensamento.

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publicado às 19:25

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 Vivemos tempos estranhos. A democracia, que permitiu, ao povo decidir com o seu voto o exercício do poder político, está a ser desvirtuada pelo poder judicial. Nos dias que correm temos visto os juízes exercer um poder que não lhes pertence para condicionar a livre escolha dos cidadãos.

O caso mais paradigmático está acontecer nesse grande país chamado Brasil. A destituição de uma Presidente democraticamente eleita pelo poder, algo discricionário de juízes, devia alertar-nos para a perversão do sistema democrático. Em relação à destituição referida não ficou provado qualquer ilícito. O que ficou provado foi que uma maioria de deputados de direita, de conluio com os seus aliados no sistema judicial, deu um golpe antidemocrático para tirar a esquerda do poder, e colocar no seu lugar a direita, na pessoa, essa sim corrupta, de Temer, um personagem sem alma.

O que se está a passar com Lula vai na mesma linha. Com maioria nas sondagens, está proibido de se candidatar, ou seja, de ganhar. Lula foi um bom Presidente, melhorou a situação económica e diminuiu as enormes desigualdades sociais, actuando na repartição da riqueza, com prejuízo para os poderosos interesses económicos. Essa é a explicação mais plausível para justificar a perseguição que a direita lhe faz, afastando-o da política. Aquilo de que é acusado, parece não passar de uma cabala. O poder judicial, deitou às urtigas a isenção e está claramente, ao serviço do poder da direita política.

No Brasil, até ver, passou a fase do poder na ponta da espingarda. Em seu lugar levanta-se outro poder, também antidemocrático, que é o poder discricionário dos homens de toga, que não possuem para o efeito qualquer legitimidade democrática. Usando o seu poder para inventar provas, para acusar, para condenar, estão a criar uma República de Juízes, à margem do sistema democrático. O que existe no Brasil já não é uma democracia é uma juriscracia. O seu objectivo é claro, afastar de vez a esquerda do poder. Eliminando politicamente todos os candidatos com hipóteses de vencer, a perpetuação da direita, e da exploração, está garantida. O Brasil está a caminho de ser de novo um estado Totalitário, perante alguma indiferença dosdemocratas.

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publicado às 21:29

Conversas na livraria, com o meu outro Eu.

por Naçao Valente, em 27.01.18

Durante o tempo em que aqui pouco escrevi, não fiquei numa espécie de sono expectante, à espera que alguma musa me acordasse. Não acredito muito em musas e se, acaso, existem, têm muitas solicitações. Fui escrevendo, noutros espaços, nomeadamente no "escritartes" um site de literatura. Desse período recupero o texto que a seguir publico.

 

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 Para o leitor compulsivo entrar numa livraria é como para o crente religioso entrar na sua igreja. Com respeito e devoção. Percorro os altares, no caso prateleiras, Presto veneração aos santos, ou seja aos livros e aprecio os milagres que fazem na mente dos fiéis, os seus leitores. De quando em vez arranco um livro à pasmaceira do seu dia-a-dia e trago-o comigo, porque livro gosta de ser folheado e de partilhar com o leitor a sua intimidade. Acredito que livro sem leitor vive triste e aborrecido.

Depois da minha visita às estantes e de tirar do seu sono um ou outro exemplar, faço a minha opção, vejo se nos sentimos bem um com o outro e dirijo-me ao altar, digo caixa, para concretizarmos a relação, sempre por intermédio de um sacerdote ou sacerdotisa, a quem pago os respectivos emolumentos. Mas hoje, antes de me decidir, assolou-me o espírito uma dúvida que precisei de esclarecer. Dirigi-me à menina da caixa, que verdade seja dita, estava a concluir um contrato com outro cliente, Mas a minha questão era simples, coisa de sim ou não e arrisquei perguntar, infringindo a cerimónia em curso. A rapariguinha olhou-me de soslaio e disse: -“aguarde, pois estou a atender este senhor”.

Amochei. Que mais podia fazer. Eu sou prático e não gosto de complicar. Eu não, mas o meu outro eu, um pouco mais rebelde, e que vive escondido dentro de mim, logo começou a especular. –

“Mas porque carga de água esta pitonisa de tranças pretas, não me diz sim ou não, obrigando-me a ficar a secar sem necessidade? Vendo as coisa pelo prisma que me é favorável, se calhar engraçou com os meus lindos olhos e quer-me manter aqui em observação. Mas vendo as coisas do avesso, como numa pirâmide invertida, pode querer castigar-me por ousar interrompê-la no seu mister. Até me imaginei a captar o seu pensamento:-“aguente aí ó cota atrevido. Já tem idade para aprender a respeitar as precedências e a esperar pela sua vez." Lucubrações do outro eu,, que o eu este, ficou firme a fazer papel de sonso.

Passado algum tempo, o tal que vive escondido atrás das aparências, deu de frosque e foi refugiar-se nas páginas de um livro que, ao menos, esse nunca o contesta. Quem deu a vida ao livro refúgio, foi o escritor Mário Vargas Llosa de quem aprecio a arte de bem pensar e melhor dizer. Estava ali um exemplar, meio oferecido, a fazer-me olhinhos, por acaso, o que roubou a virgindade ao escritor e que ainda não li. E diz-se, na galeria dos lugares comuns, que não há amor como o primeiro, nem luar como o de Janeiro. Mas isso não sei porque, mês acabado, não lhe tenho posto a vista em cima.

Quem me pôs a vista em cima, ou melhor os “olharápios”  pintados de azul celeste, lindos, foi  a rapariguinha da caixa, que se aproximou sorrateira. –Peço desculpa. O que desejava? Que óptimo livro que está a observar, que grande escritor, adoro”! Pois, balbuciei, para logo ser interrompido pelo eu clandestino “o que tu queres, ó serigaita, sei eu, ou por outro penso que sei, o que não sendo idêntico vai dar ao mesmo. Vens-me agora com a tanga da conversa fiada, armada em gata , à espera que lhe façam festas que lhe  ericem o pelo”. Pois, senhorita tem muito bom gosto, consegui dizer antes do intrometido me embaraçar, de novo, o discurso de conveniência,

bom gosto? O que ela tem é um bom corpinho, nem muito gordo, nem muito magro, nem muito alto nem muito baixo. Na conta. Deixa-te mas é de literatices, ó palerma, afina o paleio e vê se a convidas para tomar um shope. Há tontas que se deixam levar por umas larachas pretensamente”  intelectualóides”.Aproveita. Não tens a vida toda."

-Então, mas qual era a dúvida? Insistiu a rapariguinha. –Nada, respondi, já está esclarecida. Vou levar este livro. Interessa-me. Tenho um fraquinho por este escritor, no que diz respeito à sua escrita, bem entendido.

“E também começo a ter um fraquinho pela senhorita, assim como uma chama que  começa a crescer, a crescer” acrescentou o eu alternativo.

O que vale é que o bisbilhoteiro, só tem meios de pensamento, mas não tem formas de expressão, senão estava o caldo entornado. Paguei. Saí na companhia  dos "Cachorros" . A rapariguinha da livraria, com os seus olhos de mar, o seu corpo de sereia, o seu sorriso de onda enrolada, ficou na livraria com o meu eu escondido. O que se passou depois não sei. O que sei é que fiz o meu papel de cronista do

 cota-diano..

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publicado às 19:45

Ao sul somos Nação Valente

por Naçao Valente, em 26.01.18

 

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Os tempos não são os melhores para os blogues. As redes sociais, mais visíveis, mais leves,com as suas listas de amizade, prendem, a atenção dos navegadores da Net. Por essa razão, entre outras,este blog tem estado em modo de hibernação. Vai voltar, com um novo fôlego, cara lavada, e com a mesma linha de publicações, na medida do possível adaptada aos novos tempos. para se diferenciar de outros títulos, nomeadamente de colunas de opinião, passará a chamar-se, "Nação Valente, ao sul". Ao sul nascemos, ao sul vivemos, no sul habitamos como país e no sul nos sentimos bem.Assim será enquanto o mundo girar.

Para recomeçar, vamos dar música, mesmo a preceito e quem sabe por "encomenda". O cantor/poeta Sérgio Godinho acabou de lançar o novo album, ao qual deu o título "Nação Valente". Uma mera coincidência, mas todas as coisas têm o seu sentido, mesmo que pareçam não o ter. Pois então deliciem-se com a canção Nação Valente: "quero-te viva, afirmativa"

 

 

 

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publicado às 16:31

A prenda no sapatinho

por Naçao Valente, em 25.12.17
por Naçao Valente, em 24.12.11
 

A prenda no sapatinho

de manhã na chaminé

era um acto de fé

e a esperança no carinho

de um menino como nós

Com pais, irmãos  e  avós.

 

Não havia pai natal

nem pinheiro iluminado

e  nem dinheiro emprestado

para comprar o consumo,

pois no pequeno sapato

só cabia o mais barato.

 

E Jesus não era rico

mas um pobre solidário ,

que cumpriu o seu fadário

e com justiça divina

deu a todos por igual,

sem razão comercial.

 

Nasceu numa manjedora

nas estrelas anunciado

com júbilo e com agrado,

para apontar o caminho.

E com grande devoção

Cumpriu a sua missão

 

De manhã na chaminé,

nem pinheiro iluminado,

mas um pobre solidário

e que num acto de fé

e sem dinheiro emprestado,

nos deixava o seu agrado

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publicado às 21:57




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